No futuro, a UNITA não terá um presidente que vai querer eternizar-se no poder’

Jornalista de profissão, Sousa Jamba, instalado nos últimos tempos na província do Huambo, mais concretamente na Aldeia Camela Amões, é um dos ‘filhos da UNITA’, como o próprio se identifica. Longe da política activa, este escriba, que durante largos anos andou pelos Estados Unidos da América e Inglaterra, analisa a preparação do XIII congresso do maior partido da Oposição, de que sairá o substituto de Isaías Samakuva. Conhece todos os candidatos, mas se pudesse votar a sua escolha recairia para aquele “que iria promover uma liderança da UNITA colectiva”. Para o futuro, Sousa Jamba espera ainda escrever a biografia do presidente da organização: Samakuva

Por:Dani Costa

Como avalia os preparativos para a realização do XIII Congresso da UNITA?

De cá, no interior, precisamente no Huambo, vou notando muita actividade. Creio que tudo estará no lugar. A UNITA é um dos mais antigos movimentos políticos no continente Africano; há muita experiência para este tipo de conclaves .

O congresso deste mês é o que apresentará o maior número de concorrentes. O que isso representa? Que informações possui sobre cada um destes concorrentes, nomeadamente Alcides Sakala, Adalberto da Costa Júnior, Kamalata Numa, José Pedro Katchiungo e Raul Danda?

Conheci todos eles em circunstâncias diferente — todos possuem qualidades excepcionais. Alcides Sakala, além de ter sido um diplomata que representou a UNITA em momentos altamente conturbados da sua história, foi também um comandante corajoso. Admiro- o muito por ser um homem culto e altamente comedido. Conheci o engenheiro Adalberto em Portugal; a UNITA soube pôr um homem sofisticadíssimo no lugar certo. Conheci Kamalata Numa nos anos 80 durante a guerra; eu estive numa base nas matas onde ele fez um discurso que animou muita gente. Em 2008, estive numa caravana de campanha com Kamalata Numa que me impressionou por ser altamente carismático.

José Pedro Katchiungo, como eu, é um filho da UNITA; que sempre fez parte dos esforços de transformar o partido mais democrático. Raul Danda, que conheci nas matas em 1985, é um bom exemplo de um angolano que vem de um meio sociologicamente um pouco distante da maioria dos militantes do partido, mas que conquista simpatia, respeito e admiração por causa das duas habilidades. O ideal presidente da UNITA precisaria todas estas qualidades que acima citei. É por isto que eu insisto que a UNITA deveria voltar às suas raízes, onde prezou-se uma liderança colectiva. O fenómeno do líder todo-poderoso e omnisciente só surgiu nos anos 80.

Durante a aprovação inicial das candidaturas de Alcides Sakala, Kamalata Numa e José Pedro Katchiungo, estes foram referenciados num comunicado como companheiros e os outros dois, Adalberto da Costa Júnior e Raul Danda, como senhores. Tratou- se apenas de um lapso ou algo sintomático que evidenciava alguns problemas de fundo? Como viu posteriormente a aprovação das candidaturas de Adalberto e de Raul Danda? Segui mais de perto o barulho à volta da candidatura de Adalberto Costa Júnior. Senti que ele estava a ser profundamente injustiçado porque, de repente, começaram a surgir questões da legalidade e etc.. Houve um tempo na UNITA em que possuir várias nacionalidades era uma mais-valia. Quando todos os líderes da UNITA estavam sob sanções, houve canais internacionais que preferiam lidar com o Adalberto para transmitir a sua mensagem à liderança que estava no interior. O Adalberto Costa Júnior movimentava-se com facilidade por ter nacionalidade portuguesa.

Escreveu em tempos que existem outros dirigentes da UNITA que terão dupla nacionalidade. Esta questão é nova ou sempre foi uma grande preocupação da UNITA? Há quem diga que existe uma diferença entre ter um passaporte de uma nação para poder viajar e ter a nacionalidade da mesma. Seja o que for, a questão da nacionalidade entre os líderes que pretendem ascender à presidência da UNITA é uma distraçcão desnecessária.

Até que ponto o facto de Adalberto da Costa Júnior ser mestiço preocupa tanto alguns sectores da UNITA, a ponto de o filho de Jonas Savimbi e forte apoiante de Alcides Sakala, Tao Kanganjo, ter descrito o actual candidato como ‘híbrido’?

Alcides Sakala é neto de um judeu alemão fugido de Hitler e que se instalou na área do Bailundo e no seu lado materno, dos Ekuikuis — uma das grandes famílias reais dos Ovimbundus. Eu próprio sou bisneto de árabes que se tinham instalado em Malanje. Todos somos híbridos e isto resulta em criatividade e diversidade. A história da UNITA está cheia de figuras com várias origens do mundo que contribuíram para o sucesso do movimento. Conheci a família do Adalberto Costa Júnior. Tive aulas de umbundu do seu falecido pai, que é de Quinjenje. Claro que na UNITA há certos preconceitos, como no resto da sociedade. O que é importantíssimo é não aceitar que as efusões irreflectidas tenham tanta importância.

Até que ponto os filhos de Jonas Savimbi jogam um papel fundamental nas eleições para liderança na UNITA? Está é a primeira vez que estamos a ver os filhos do Doutor Jonas Savimbi a tentar levar ao trono certos candidatos. Eleições deste género sempre passam a ter um aspecto carnavalesco e de gladiadores; todo este dar nas vistas faz parte do espectáculo. Tenho muito respeito pelo Rafael Massanga — esta é uma figura séria na UNITA, trabalhador afincado, dedicado aos estudos; alguém cuja opinião eu levaria a sério. Devo salientar aqui que, em 1965, quando o Doutor Jonas Savimbi teve a primeira reunião magna na Zâmbia, que iria resultar na formação da UNITA, não se falou de uma espécie de monarquia. A história da UNITA é a história de uma causa, uma história de imenso sacrifício por todos.

Falava-se muito de Rafael Massanga, Tao Sakaita, Cheya Sakaita, mas hoje entrou uma nova em cena, por sinal mestiça, Ginga Sakaita. Qual é a apreciação que faz da sua aproximação a Adalberto e pares? Não conheço a Ginga Sakaita e só tenho lido sobre ela nas redes sociais nos últimos dias. Espero que, além de ser mestiça e filha de Jonas Savimbi, ela tenha outras qualidades. Sendo filha de Jonas Savimbi ela tem um nome ressonante; espero que ela poderá usar isso, por exemplo, para atrair a juventude para participar na vida pública.

Concorda que a luta pela liderança deverá estar centrada entre três candidatos, nomeadamente Alcides Sakala, Adalberto da Costa Júnior e Kamalata Numa? Não se deve descontar os outros candidatos.

A luta pela liderança tem sido acompanhada também por uma intensa troca de acusações. A UNITA conseguirá ultrapassar isso depois do Congresso?

Não há nenhuma organização cá na terra com seres humanos sem diferenças. A questão é saber gerir estas contradições. Isto pode ser feito através de instituições sólidas. Sempre houve uma cultura de disputa de ideias na UNITA. Como já disse, até 1980, a liderança do partido tinha um aspecto colegial; só foi a partir de 1980 que surgiu a cultura que dava primazia a uma só figura. Também houve sectores que promoveram a noção de que um debate vigoroso no partido poderia resultar na sua desintegração.

No seu ponto de vista, existem candidatos da continuidade, da ‘inovação’ e aqueles que podem “perigar” o Projecto de Muangai?

Ninguém pode “perigar” o projecto de Muangai. Já não é tempo em que uma figura pode transformar por completo a essência do partido.

Hoje não se fala de um canditado do Bié, onde nasceu Jonas Savimbi, o primeiro Presidente, e Isaías Samakuva, o seu substituto. Esta questão era um falso problema na UNITA?

Sempre insisti que isto era um falso problema.

Se pudesse votar, quem escolheria para futuro presidente da UNITA?

É difícil dizer. Votaria para quem decidisse promover uma liderança da UNITA colectiva…

O que espera do futuro presidente da UNITA e quais serão os seus principais desafios? O futuro presidente da UNITA vai ter que dar mais importância às províncias. Ele vai também ter de consultar as várias componentes do partido. Ele vai ter que ter uma equipa de estrategas sérios (não o batalhão de fofoqueiros e intriguistas de sempre) para traçar e implementar uma estratégia viável.

Já se pode falar do legado de Isaías Samakuva? O que representaram os 16 anos de liderança?

Ainda não. Em todo o caso, o facto de que ele cumpriu a sua palavra é algo louvável. No futuro, a UNITA não terá um presidente que vai querer se eternizar no poder… Já manifestou interesse de escrever a biografia de Samakuva. Vai levar avante esta ideia? Sim. Tive várias conversas antes de ele ser presidente da UNITA, agora poderei continuar o projecto.

 

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