Cidadãos divergem sobre a celebração dos finados

Para uns, a celebração do dia dos finados não faz sentido, por acreditarem que com a morte tudo acaba. Em sentido contrário, outros defendem que a morte não é o fim e que existe vida numa outra dimensão, por isso, faz todo o sentido homenagear os que já partiram

Por:Milton Manaça

Apegando-se ao livro bíblico de Eclesiastes, o jovem Yamba Mangani disse que quando as pessoas morrem, tudo em que ele acreditava deixa de existir, como os seus pensamentos, não exercendo qualquer influência sobre os que continuam em vida. Yamba acredita que os que sofrem tormentos dos mortos estão, no fundo, sob domínio de forças demoníacas, acrescentando que o respeito pela memória dos que já partiram não deve ser confundido com uma eventual intervenção deles na vida dos vivos. Pedro Mbandi partilha a mesma opinião e diz que as pessoas que alegam estar a passarem por domínio positivo ou negativo por pessoas que já partiram do mundo fisicamente… isto só pode ser explicado com a presença de forças demoníacas. “A Bíblia fala que existem espíritos do mal que nos incomodam e eles nos trazem imagens de pessoas que nós conhecemos. Em função da vivência que tivemos com esta pessoa, interpretamos que ela tem aparecido no nosso sonho”, disse Pedro Mbandi.

Contrariamente aos dois primeiros interlocutores, Gilberto Capitango, professor de profissão, acredita piamente que existe vida numa outra dimensão após a morte, porque, para ele, não seria possível que esta criação de Deus se extinguisse depois do seu desaparecimento físico na terra. “Há vida depois da morte e em função do percurso que a pessoa faz neste mundo definirá onde a minha alma irá”, disse, e acrescentou: “Mas há pessoas que já experimentam o inferno ou o paraíso na terra, em função das suas acções diárias”. Assumindo-se como cristão católico, Capitango partilha da opinião de que não existe influência direita dos mortos sobre os vivos, mas que isso não deve retirar o respeito e a homenagem que os vivos devem prestar a eles. Gilberto Capitango defende que os mortos devem ser honrados e que o dia 2 de Novembro é sinal de que os que partiram estão na memória dos seus entes queridos e não foram esquecidos.

“O soba morto já não tem acção sobre ninguém”

Para o soba grande do município de Belas, Miguel Neto, há diversas formas de encarar a morte na cultura Bantu. Na linhagem que representa, por exemplo, quando as pessoas morrem não exercem nenhuma acção sobre os vivos. Contrariamente a outros sobados, em que esta figura permanece por cerca de uma semana em casa depois de morto, Miguel Neto disse que na sua cultura até o soba é submetido a um enterro normal e é levado a morgue como qualquer cidadão, dando o exemplo do seu tio a quem sucedeu no trono, falecido há cerca de duas semanas.

“A diferença é que, no nosso caso, vamos ter que cumprir um mês de cinzas, e, depois disso, cumprir um ritual para dar a conhecer as suas realizações”, disse a autoridade tradicional, reforçando que apesar dos sucessores invocarem o nome do falecido, este já não exerce qualquer poder sobre os vivos. Segundo Miguel Neto, as autoridades tradicionais são escolhidas por Deus e a ele devem temor, acrescentando que os homens que acreditam em Deus não podem acreditar na influência dos mortos sobre os vivos.

Questionado sobre a existência de tradições como o feitiço nos sobados, o representante das autoridades tradicionais no Belas disse que o trono que herdou não se guia por esta prática, chamando a atenção para a necessidade de se distinguir a diferença entre poder e feitiço nos sobados. “O que muitos sobas têm é poder, que deve ser usado para o bem da comunidade. Poder para travar a chuvas se estiver a vir em momento inoportuno, identificar e punir os ladrões da aldeia. Isso é poder do soba e não feitiço”, disse Miguel Neto.

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