Baixo número de fiscais deixa desprotegida metade do Parque da Quiçama

O trabalho de fiscalização no Parque Nacional da Quiçama é feito 24/24 horas, numa extensão de 9.960 quilómetros quadrados. Segundo o responsável dos fiscais, Eduardo Benguela, por falta de efectivos, actualmente apenas cobrem apenas 50% do parque

O número de efectivos é bastante baixo e Eduardo Benguela, chefe da fiscalização do Parque Nacional da Quiçama (PNQ), que falou com o Jornal OPAÍS durante o encerramento do I Workshop sobre Jornalismo e Ambiente, preferiu não entrar em pormenores, por questões de segurança.

Também por questões de segurança, e porque precisa preservar a sua integridade física, Eduardo Benguela pediu ao nosso jornal que não fosse publicada a sua imagem. Os confrontos com os caçadores furtivos têm sido constantes e, quase todos os dias, os fiscais colocam as suas vidas em risco para preservar a nossa fauna.

“Desempenho o patrulhamento no Parque Nacional da Quiçama de 24/24 horas, numa extensão de 9.960 quilómetros quadrados”, que segundo o responsável dos fiscais, por falta de efectivos, actualmente apenas conseguem cobrir 50% do parque.

Não está fácil, os caçadores andam armados, não com caçadeira mas com AKM. Às vezes nos confrontamos, porque eles podem alegar que é para sobrevivência, mas acabam por caçar uma manada de 10 animais, por exemplo. É claro que este número não é para sobrevivência, mas sim para comércio”, sublinha. A caça furtiva tem um impacto muito grande nas comunidades, sem esquecer o facto de que existe dentro da área de conservação do PNQ, e como tal isto cria um conflito intenso, uma vez que parte destas comunidades ainda sobrevive da caça.

Os animais que constantemente têm sido vítimas são os veados, javalis, gnus, olongos e elefantes (este para lhe levar os dentes). Têm registado inclusive casos de caçadores que vêm de helicóptero e outros materiais sofisticados, abatem o elefante, retiram o marfim e vão se embora.

Caçadores estudam estratégias dos fiscais Muitas vezes, nos confrontos que têm tido, detêm caçadores que depois são levados a tribunal. Eduardo Benguela também lamentou o facto de estes que são detidos estarem a receber uma pena muito branda e, outros, a serem soltos depois do pagamento de uma caução.

“Tivemos um caso de um caçador que foi condenado e depois não demorou, foi posto em liberdade. Voltou a caçar e desta vez mais agressivo, porque já conhece quais são os nossos movimentos e o número de efectivos existentes. O nosso parque tem a cerca eléctrica destruída pelos elefantes, o que faz com que existam várias entradas dos caçadores”, conta o chefe dos soldados da natureza do PNQ.

Esta problemática das penas brandas aos caçadores furtivos também tinha sido levantada pelo director do Instituto Nacional da Biodiversidade e Áreas de Conservação, Aristófanes Pontes, aquando de um seminário organizado pelo Ministério do Ambiente e a Procuradoria Geral da República (PGR). O director conta a história de um senhor, por exemplo, que foi apanhado no ano passado com uma Palanca Negra, no Parque Nacional do Loando. O cidadão foi julgado e condenado a pagar 250 mil Kwanzas, quando a sua pena deveria ser acima dos dois milhões e 400 mil Kwanzas.

Por isso é que “nós nos reunimos com os procuradores para ver como é que esses instrumentos podem ser usados de forma combinada para agravar as penas, de modo a desencorajar estas práticas que têm destruído a nossa fauna e flora”, disse, tendo acrescentado que reconhece que esta é a aplicação da lei, mas “nós precisamos rever isso, porque muita gente está a enriquecer com as espécies da nossa flora e fauna”.

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