E quando se apaga a luz

Por: Kâmia Madeira

A dois de Novembro celebramos o dia dos Finados, prestamos homenagem aos que partiram visitando as suas campas. Mas que tipo de relação temos com a morte? A palavra luto vem do Latim Luctus que quer dizer dor, mágoa ou lástima expressando um sentimento de pesar. Segundo dados avançados por responsáveis do GPL, Governo Provincial de Luanda os enterros custam entre 30 a 200 mil kwanzas e os cemitérios existentes não servem a demanda, sendo necessária a construção em outros locais em virtude da grande densidade populacional.

Será caso para pensarmos que apesar dos índices de natalidade continuamos com números elevados de morte. Mas o que trago à liça para discussão é como, enquanto sociedade, encaramos o sentimento de perda e a lástima. Cada vez mais temos imensas dificuldades em assumir responsabilidade sobre o que quer que seja, os nossos ente queridos quando falecem quer seja por causas naturais, por motivo de doença ou por acidente atribuímos a causas endógenas o sucedido e muitas das vezes com ramificações sobrenaturais. São várias as conversas nos óbitos sobre como o falecido/a era invejado no seu local de trabalho ou vida pessoal , quando criança ou idoso motivos aliados à feitiçaria são muitas vezes avançados.

A nossa relação com os cemitérios, como espaço de respeito e solenidade, está igualmente conspurcada, casos de bebedeira e falta de educação são diários. Há países como o Gana em que os fazedores de caixões fazem- nos por encomenda mediante a profissão do defunto, tradição milenar e que caracteriza este povo, mas nada tem a ver com música em decibéis elevados, danças frenéticas ou cortejos desordeiros que não respeitam os espaços de outros enlutados. Não podemos acusar a profanação de campas, os esquemas para ter lugares melhores acondicionados ou em locais mais próximos como motivos que nos levam a mercantilizar a morte. A perda de valores não se vê apenas no descrédito em relação aos vivos, mas na forma leviana como tratamos os mortos. Até quando iremos menosprezar o valor da memória e história para passos seguros rumo ao futuro? Porque desvalorizamos os ensinamentos e tradições ancestrais que podem e devem revestir-se de modernidade e o que acontecerá quando a luz se apagar pois poderá não existir alguém que possa contar a história? O cuidado com quem já morreu não deve ser marco exclusivo do dia 2 de Novembro, mas se os vivos mal vivem será legitimo que se preocupem com quem já se foi?

error: Content is protected !!