Moradores do Benfica desclassificam slogan: “Distrito Cultural”

Ouvidos pela reportagem de “OPAÍS”, os moradores desta circunscrição de Luanda, rejeitam a designação (Distrito Cultural) pelo facto de haver poucos registos de actividades artístico-culturais na zona, mas a administração do distrito argumenta que a denominação refere-se a uma razão histórica

Após o seu empossamento como administrador do distrito urbano do Benfica, Hélio Aragão denominou esta zona, no dia 12 de Julho, como Distrito Urbano da Cultura. Esta denominação enquadrouse no âmbito da reorganização do distrito e visava a atracção e o desenvolvimento do turismo nesta localidade, adstrita ao município de Belas. Dado o facto, após cerca de quatro meses, o jornal OPAÍS efectuou uma ronda na referida localidade.

Os ponteiros do relógio marcavam 10:27 e o sol raiava pesadamente no azul do céu, que se rejeitava a amenizar os seus raios ultravioletas. O Duster de OPAÍS rodava sobre o gasto tapete asfáltico da rua Dona Xepa, em direcção ao recéminaugurado Corredor da Cultura. Com um andar que denotava cansaço, calças azul-escuras, cuja bainha da perna do lado direito estava arregaçada e a suar justamente por ser um dia de sol, lá vinha o primeiro interlocutor de nome Pedro Capequel, morador há 18 anos no Benfica.

Questionado sobre as actividades culturais do seu bairro, Man Pé, como é vulgarmente conhecido, trazia consigo lembranças vagas de um evento denominado “Galinha Gentia”, que já não existe, conforme explica, faz dois meses. Este evento consistia num concerto, onde artistas, seleccionados aleatoriamente, actuavam, o que alegrava os munícipes. “Tirando as músicas que tocam em roulottes, já não se realizam cá actividades culturais.

Aqui no bairro não temos quase nenhuma actividade, mas gostaria que se realizassem novamente. A administração que vele por esta situação”, lamentou. Actividades culturais podem salvar jovens do perigo da criminalidade Rumo ao nosso destino, Gonçalo Tomás, mais recente do que Man Pé no bairro, disse, ironicamente, que a única actividade cultural que vê a realizar-se é a “delinquência” e a “prostituição”, pois,prossegue, isso prende-se ao facto de não existir oportunidade para os jovens. “Muitos jovens aqui estão perdidos.

Caso haja actividades culturais e desportivas, poderão ser salvos do mundo da droga e da criminalidade. Eles defendem que tem de haver mais recreio, mais cultura, mas lamentavelmente não têm como, porque não há iniciativa. Este governo está morto”, opinou.

Outro facto que também lamentou foi o de nunca ter visto o administrador, nem sequer o coordenador do bairro a circular pelas redondezas da população. Por conseguinte, Wilson Martins, popular há oito anos, fez uma analogia entre os tempos passados e os actuais. Desta análise, disse que tanto antes, como agora, no Benfica, nunca houve fortes actividades culturais que justificassem a denominação de Distrito Urbano da Cultura.

Quem comunga com Wilson Martins é Josefina Cavala. “Discordo da ideia de o Benfica ser denominado Distrito Urbano da Cultura. Aqui organiza-se mais festas de jovens. E tais eventos não são culturalmente fortes para atribuir ao Benfica essa denominação”, realçou a senhora, que se fazia acompanhar dos filhos.

O Corredor da Cultura Esta localidade mais não é do que uma rua que respira arte à primeira vista, pelos grafitis que revestem os curtos muros. Cruzada por uma travessa no seu início, o Corredor da Cultura tem quadros pintados a óleo sobre tela na ala esquerda, apoiados numa parede, e, na ala direita, apoiados numa árvore, cujos troncos robustos geram sombras, onde Billy Elione, o artesão, estava à espera de fregueses.

Conta que ali foi parar após ter aceitado um convite feito pela administração. Billy, diferente de todos os outros interlocutores, defende que o Benfica merece a denominação de Distrito Urbano da Cultura. Quando questionado do porquê, não soube o que responder.
Administração explica Distrito Urbano da Cultura é uma questão histórica O chefe do Gabinete do Administrador do Distrito Urbano do Benfica, José Nhanga, explicou que a denominação de Distrito Urbano da Cultura surge com a ideia de elevar a acção cultural ao nível da referida localidade. E, nesse sentido, inaugurou-se a passadeira colorida (cita no Corredor da Cultura), que surge com a intenção de chamar a atenção aos turistas sobre as potencialidades culturais que existem no distrito urbano do Benfica, conforme conta Nhanga.

“Aqui também tem-se valorizado a história que marca o passado. Só para ver que culturalmente o Benfica é rico, porque é aqui no Benfica o local onde desciam os escravos que vinham de vários pontos do território. Razão pela qual erguemos o monumento que é o memorial à Escravatura Ruínas de Cabolombo”, ressaltou.

Acrescenta que denominou-se o Benfica assim, sobretudo, por esta localidade gozar de uma tradição da cultura do nosso povo. “Eu acredito que muita gente quando trata-se de cultura, está a falar mais de músicas e shows e é normal pensar assim. Mas quando falamos em Distrito Urbano da Cultura, estamos a nos referir aos resgates dos valores culturais que o Benfica tem. E nós vamos dinamizando essa acção”, garantiu.

Sítio histórico

O distrito conta com o memorial “Ruínas de Cabolombo” situado no bairro do Benfica, que, por volta do século XVII e XVIII, servia de porto para o tráfico de escravos. Cabolombo foi classificado em 1993 como um sítio histórico de Angola.

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