Ecos da Independência agitam Cuanza-Sul

Embora a cerimónia central das festividades alusivas ao dia da independência deva acontecer apenas amanhã, desde ontem já era possível assistir-se à movimentação de munícipes da Quilenda e Amboim em trânsito para a Kibala, onde vai decorrer o acto. Os meios não importam, na boleia de um kupapata, nos apertos dos táxi ou a bordo de uma viatura pessoal, o importante é chegar para aproveitar o final de semana prolongado e ouvir as boas novas que virão do dia da “Dipanda”

Por:Domingos Bento e Maria Teixeira, enviados ao Cuanza-Sul
fotos de Pedro Nicodemos

Nas ruas, nas instituições públicas e privadas, nos bares e em qualquer outro local, é sobre o 11 de Novembro que se fala no Cuanza-Sul, província que, este ano, vai receber o acto central das comemorações relativas ao dia da independência nacional, conhecido também como o “dia da Dipanda”. Emboras o município da Kibala seja o palco das actividades, onde vão decorrer uma serie de acções, as outras municipalidades como a Quilenda e o Amboim também já vivem o eco das festividades do 11 de Novembro.

As ruas estão mais movimentadas e as pessoas estão animadas por saberem que, afinal, efectivamente a vida fazse nos municípios. E, levar o acto central para a Kibala, um dos municípios mais sofridos do Cuanza-Sul, representa um orgulho para a província inteira, que, nos últimos tempos, tem vindo a ganhar importantes infra-estruturas sociais, sobretudo no segmento rodoviágorio. Neste contexto, destaca-se o troço que liga Amboim a Quilenda, aberta à circulação no passado mês de Setembro, depois de um longo período de construção que custou ao Executivo central 27 milhões de dólares. O percurso de 35 quilómetros, que anteriormente fazia-se em quatro horas, actualmente dura menos de 25 minutos, ligando harmoniosamente o tapete asfáltico da Gabela e Quilenda com bastante eficiência e conforto.

Ao todo, a província do Cuanza- Sul é das que têm maior extensão de redes de estradas, com cerca de 2.916 quilómetros, desde as vias principais e secundárias e, até ao momento, a região já foi beneficiada com um perímetro de 1.190 quilómetros de estradas asfaltadas, como revelou recentemente o ministro da Construção e Obras Públicas, Manuel Tavares de Almeida. Hoje, esses importantes troços estão a dar vida ao interior do Cuanza-Sul, que vai conhecendo a movimentação de pessoas e bens de um lado para o outro com maior celeridade, eficiência e sem medo dos fantasmas do passado, onde os munícipes eram afunilados na via por conta da precariedade dos troços. No entanto, embora o acto central da Dipanda aconteça apenas amanhã, desde ontem que já se vê muita movimentação de munícipes da Quilenda e de Amboim que seguem em trânsito para a Kibala.

Os meios não importam, na boleia de um kupapata, nos apertos de um táxi ou a bordo de um carro pessoal, o importante é chegar para aproveitar o final de semana prolongado e ouvir as boas novas que virão do acto central do dia da Dipanda.

Na rua, as expectativas convergem. Todos querem ouvir, o vicepresidente da Republica, Bornito de Sousa, falar sobre as acções em curso com vista à melhoria da qualidade de vida das famílias que andam cada vez mais num verdadeiro sufoco. Com os preços dos produtos básicos a “atingirem os céus”, não há bolso que aguente e os cidadãos do Cuanza-Sul, em representação do país inteiro, querem ouvir uma palavra de fé que possa, posteriormente, na prática, traduzir-se na saída desta crise financeira que as famílias vivem.

O discurso da guerra e o fantasma de um passado triste já não é o que o jovem camponês Cardoso Gaspar quer ouvir. Enquanto saía da sua pequena lavra, no Bairro Novo, arredores do município da Gabela, o jovem, com a aparência visivelmente cansada, em função da vida sofrida, disse que não quer ouvir mais nada de politiquices que não seja uma palavra verdadeira que venha resolver o problema do emprego, que é dos grandes dilemas que a geração do seu tempo vive.

Com o semblante triste, o jovem, de 34 anos de idade, implora por mudanças e uma aposta seria do Executivo na força da juventude para minimizar o sofrimento de uma vida sem esperança. “O vice-presidente vir aqui (ao Cuanza-sul) para nos improvisar mais com discursos é o mesmo que nada. São muitos anos de sofrimento e o governo não nos ajuda com nada. Se a pessoa não vai na lavra, não come nada. Queremos que o governo nos fale de boas coisas”, frisou o jovem que sobrevive de pequenas plantações.

Vida só piorou

Por seu lado, Guida José, também camponesa, manifestouse triste com a situação social que as famílias vivem. Enquanto conversava com a nossa equipa de reportagem, a mulher, de 39 anos de idade, disse que a vida na província anda cada vez mais difícil e a situação de fome vai piorando de dia para dia. À semelhança dos seus conterrâneos, Guida defende a ilustração de um país real no discurso do vice-presidente e que se apontem os caminhos para a saída desta situação de miséria a que muitas famílias estão voltadas. “Na lavra também já não está a sair nada. E nas cantinas estamos a comprar o quilo de arroz a 800 kwanzas. Está muito mal mesmo. Assim estamos à espera que o vice-presidente nos fale alguma coisa boa que vai fazer baixar os preços da comida. Não estamos a aguentar, é muito sofrimento”, lamentou.

Governar com verdade

Por seu lado, o pastor Inácio Constantino defende uma governação verdadeira para a melhoria da qualidade de vida das populações e insta o Presidente da Republica, João Lourenço, a cumprir a sua promessa eleitoral dos 500 mil postos de trabalho. Segundo o prelado, apesar de a vida na província, à semelhança de outras partes do país, estar cada vez mais difícil, resultante da situação económica e financeira, é obrigatório que se cumpra o que foi prometido, sobretudo na vertente do emprego, já que o desemprego vem fustigando a vida da juventude que neste momento deambulam sem era nem beira.

“Há muito sofrimento. Os nossos jovens estão a viver momentos muito difíceis. Na sua maioria não têm emprego nem escola. E quando há isso facilmente as pessoas caem no crime e no álcool. E se tivermos toda a nossa juventude mergulhada nesse mal, penso que vamos adiar o nosso desenvolvimento. Então o governo precisa de fazer alguma coisa com a máxima urgência. É importante que se cumpra o que se prometeu”, notou

Reforço da segurança pública

O município da Quilenda e do Amboim embora sejam, na sua generalidade, tranquilos, nos últimos dias têm conhecido um reforço da segurança e da ordem pública. A todo o instante, é possível ver, em muitos pontos das duas pequenas vilas, agentes fardados e à paisana que vão, de forma cuidadosa, garantindo a ordem pública. Nas ruas, enquanto a vida segue agitada, com os Kupapatas “furando” as principais vias e pontos de acesso, carregando citadinos de um lado para o outro, os agentes da ordem acompanham ao pormenor de forma a evitar males piores nestes dias de verdeiros alvoroços. Enquanto isso, as bandeiras e os cartazes com as cores vivas do país também já circulam pelas ruas do Cuanza-Sul a anunciar que, efectivamente, o dia da independência é já amanhã.

error: Content is protected !!