“A economia de Angola é toxicodependente do Governo”

O fi m da subvenção aos combustíveis pode ocorrer no fi m deste ano ou no princípio de 2020, segundo o secretário de Estado dos Petróleos. Entretanto, o economista Yuri Quixina julga que o excesso de subvenções na economia decorre da matriz da economia virada para o consumo

O país comemorou 44 anos de independência. Qual é o seu sentimento?

É de uma felicidade enorme, por se tratar de uma semana memorável. Mas penso que depois do dia 11 de Novembro de 1975 ainda não fizemos uma comemoração à altura da data. Não estamos a levar a sério essa data. Penso que não se devia resumir num comício.

Que economia esperava ver passados 44 anos?

Primeiro é que ao longo dos 44 anos, Angola perdeu o tacto de país, no sentido de que o angolano se tornou materialista, porque foi formatado assim. Só significava angolano quem tivesse bens materiais.

Do ponto de vista económico tivemos um péssimo percurso, porque sempre apostamos no consumo e não na produção.

A matriz económica virou-se mais para o consumo e intervencionismo. África contínua à espera da independência?

Seguramente, os países africanos ainda não são economicamente independentes, pois continuam dependentes de financiamento externo e por isso o continente tem uma dívida muito alta. Do ponto de vista da industrialização, Angola, em particular, ficou muito atrás.

O grande problema é que a África descobriu muito tarde o capitalismo e a livre iniciativa. Gestão sem mácula, com ética e deontologia profissional é o que a ministra das Finanças pediu aos novos gestores de empresas e institutos públicos.

O que esperar dos novos conselhos de administração?

São os desafios que a ministra lançou aos novos gestores, inclusive os das empresas que constam na lista das privatizações. Entretanto, penso ser fundamental definirem-se metas a cada gestor nomeado, porque devem prestar contas quando cessam as funções.

A ministra chama a atenção para questões importantes como a ética e a deontologia, factores fundamentais para uma gestão virada para resultados. A ministra das Finanças afastou a possibilidade de redução de pessoal e encerramento de agências do BCI.

Pensa que um potencial comprador aceitaria essa condição?

Para já, o governo nunca deveria ter bancos. É normal essa declaração da ministra porque um processo que está a ser conduzido por políticos. Logo, tem de ter filosofia política para falar desses assuntos. Isso soa bem aos ouvidos dos trabalhadores. Em qualquer cenário, um banco que tem buracos enormes, para não falir tem que fazer ajustamentos do ponto de vista de custo e proveitos.

Isso dependerá se a privatização será parcial ou total. Neste momento o governo não está em posição de impor condições.

A retirada das subvenções pode ocorrer no fim deste ou no início do próximo ano. Você é a favor?

A nossa economia foi ‘drogada’ desde 1975 e é preciso desintoxicá- la. Como justifi ca? A economia de Angola é toxicodependente do Governo, porque tudo era subvencionado. E não está ainda na fase de ressaca, porque continua bêbada. Não podemos tirar os subsídios sem fazer estudo. O Kwanza está em coma e o governo não tem muito espaço de manobra para controlar os preços. O único caminho que restou é a fl exibilização dos preços do mercado dos combustíveis.

Sugestão de leitura

  • Títutlo da obra: Angola – Do Afro-Estalinismo ao Capitalismo Selvagem
  • Autor: Tony Hodges, economista britânico
  • Ano de lançamento: Junho de 2002
  • Frase para pensar: “o desafio dos jovens para o desenvolvimento de Angola não é menor do que aquele que os nacionalistas tiveram para libertação”, Yuri Quixina
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