Quatro contos com vista para o mar numa havana de 500 anos

os havaneses dizem que o Malecón é o seu sofá, que quem se senta ali, olhando para o mar, está triste e quem olha para a cidade está contente. A vida deles transcorre embalada pelo vai-e-vem das ondas e suas histórias constroem uma Havana que completa cinco séculos neste Sábado (16).

Um breve viajante no tempo Yosbel Sosa dirige uma “máquina do tempo”, um Chevrolet Impala conversível preto de 1959, que leva os turistas à década de 1950, quando Havana parou após a Revolução. “Ter um carro antigo ajuda.

O turista quer conhecer a parte antiga, a história de 500 anos atrás”, diz. Ele é motorista no Nostalgicar, um empreendimento privado que reforma carros clássicos e oferece passeios pela cidade. No seu trajecto, é inevitável deparar-se com a decadência: alguns cantos da cidade cheiram a humidade, a roupas guardadas e a imobilidade.

Mas também transitam por uma cidade viva que recupera, com relíquias como o Capitólio, adornado com ouro da Rússia, suas estruturas coloniais, seus palacetes, seus edifícios Art Decó, novos hotéis de cinco estrelas, a emblemática Praça da Revolução e o seu Malecón (quebramar), chicoteado pelo mar. Yosbel tem 33 anos e abandonou as aulas de Direito. Num país onde a maioria da população trabalha para o Estado, com salário médio de 50 dólares mensais, ele optou pelo turismo, importante motor económico de Cuba, que recebeu 4,75 milhões de visitantes no ano passado.

“Às vezes saio muito cedo e volto tarde, quando os meus filhos estão a dormir. Fico triste de não poder vêlos, nem brincar com eles. Mas a família está contente com o meu trabalho”, explica. Quando acaba a viagem ao século XX, usa o transporte público para voltar para o XXI, onde a sua esposa e os seus dois filhos o aguardam em casa para o beijo de boa noite.

O almirante de Cayo Hueso Roberto Molina pesca no ‘sofá’ de Havana, um longo móvel de cimento com vista para o Atlântico. Ele tem 69 anos e leva quase metade da vida “respirando este arzinho gostoso, delicioso e o sol, que é o mais importante”, conta. Cuba teve a sua frota pesqueira no passado. Hoje, pequenas lanchas abastecem o país com pescado, privilegiando a distribuição estadual.

Raramente é posta à venda. Quem exige são restaurantes privados e diariamente centenas de havaneses chegam com vara e linha para tentar pegar algo para comer e vender. “Peixe tem em Havana, mas é preciso pescá-lo primeiro”, afirma.

Ele só não navega. “Meu lance é o Malecón. Não perdi nada no mar”, diz. Ele mora no bairro de Cayo Hueso, centro de Havana, a 400 metros do mar. De onde ele mora, vê-se o farol do Morro, que recebe os golpes da maré alta e dos ciclones. “O quebra-mar fica soberbo com um furacão, todo o centro de Havana alaga.

É inevitável, coisa da natureza mesmo”, diz. Ali, em 1994, em plena crise após a queda da União Soviética, 45.000 pessoas se lançaram em balsas com destino à Flórida. Foi o chamado “período especial”. Uma multidão se amontoou no Malecón, protestando. “Mas veio – desenha com a mão uma barba no queixo – e todos pra casa”, conta. Muitos cubanos substituem o nome de Fidel Castro com esse gesto.

A sua rotina inclui caminhadas, filas para trâmites e recepção de alimentos que o Estado fornece. Tudo com humor. “O havanês é alegre, se está triste é porque é um chato. Se você resolve hoje, está resolvido. Se não resolve amanhã, se ferrou. Mas de qualquer forma, vai resolver”. – Uma fada que navega Conta-se que uma fada desceu à Terra, caiu no jardim da casa de uma bruxa e esmagou a sua flor favorita. Como vingança, sofreu um feitiço: transformada em prata, não podia voltar mais e ficaria condenada a caminhar pelas ruas de Havana Velha. A fada Beatriz Estevez tem 29 anos, deixou a Faculdade de Direito e encontrou na arte a sua realização.

É artesã, actriz, estátua viva e executa a sua “performance” na rua Obispo, lotada de turistas e de restaurantes com bandas de som cubano. “O meu pai deu u m chilique. Mas também me disse, ‘ai, filha, você ganha num dia o que eu ganho num mês, não posso dizer nada’”. Seu pai é engenheiro naval. O feitiço não a impede de navegar.

Quando acaba o dia e o céu tinge de laranja o mar que banha o Malecón, pega uma barcaça que atravessa a baía de Havana em 7 minutos até Regla, um pedaço de campo na cidade, diz. “Os reglanos são mais espirituais, tranquilos. Todo o mundo se conhece, senta-se na porta de casa, tem uma energia positiva”, conta Beatriz.

No povoado fica a igreja da Virgem de Regla, que convive em harmonioso sincretismo com a ‘santería’ africana, o equivalente cubano do candomblé. A maioria dos seus habitantes trabalha em Havana. “Estou certa de que é a energia de cruzar o mar todos os dias, mas algo acontece ali que as pessoas são muito mais calmas. Vêm aqui descansar, não trabalhar”.

– A médica que se desloca a pé Alina González não tem carro. Com as sanções dos Estados Unidos, complicou-se o abastecimento de combustível e o já deficiente transporte público na ilha. Assim, esta geriatra de 57 anos caminha 2 quilómetros até ao Centro de Pesquisas sobre a Longevidade (Cited), onde trabalha. “Somos parte do povo, somos o cubano comum e isso nos identifica com nossos pacientes.

Os problemas que eles têm são os que nós temos”, conta. No Brasil ou nos Estados Unidos, alguém com a sua experiência talvez tenha a sua própria clínica, uma camioneta, agenda e uma geleira lotada. Em Havana, ela cuida de centenários, que superam os dois mil num país de 11,2 milhões de habitantes e expectativa de vida de 79,5 anos, como a do mundo desenvolvido. Em Cuba, a universidade é gratuita e muitos médicos se engajam em embriagadas que prestam serviço no exterior para que o país obtenha divisas, como no programa Mais Médicos, no Brasil. A Organização de Estados Americanos (OEA) questiona o programa porque os médicos ficam com apenas uma pequena parte do salário.

O governo assegura que estes recursos subvencionam a educação e a saúde. “Gosto muito do que faço, amo a minha profissão, amo a minha família, amo a minha cidade, amo o meu país”, diz Alina. “É verdade que há dificuldades, que é um desafio, às vezes chegar em casa, ter uma conversa íntima com a minha geleira, que eu abro e digo, o que vou cozinhar hoje?”, conta.

Casada e mãe de uma menina, teve diagnosticado câncer de mama há sete anos. Deram-lhe poucas esperanças, mas tratou-se e vive com vontade de continuar contemplando o mar. “Quero entrar para ver um museu, o porto, pegar a lanchinha, cruzar a baía e voltar (…) Seguir caminhando pelos seus belos parques, pelo Malecón, por todo o seu esplendor, por muito tempo”. Ali, do sofá com vista para o mar.

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