Kissinger diz que conflito comercial EUA-China pode virar uma guerra

O ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger afirmou, nesta Quinta- feira, que se os Estados Unidos e a China não resolverem o seu conflito comercial poderão enfrentar uma guerra

‘Se o conflito puder ser desenvolvido sem restrições, o resultado poderá ser ainda pior do que na Europa”, disse o ex-diplomata de 96 anos, em Pequim, durante um fórum sobre “A Nova Economia”, promovido pela agência de notícias financeiras Bloomberg. “A Primeira Guerra Mundial estourou devido a uma crise relativamente pequena (…) e hoje as armas são mais poderosas”, acrescentou. Segundo ele, as tensões entre as duas primeiras economias mundiais não são apenas econômicas, mas também diplomáticas.

Pequim critica as operações navais dos Estados Unidos no Mar da China Meridional, enquanto Washington denuncia prisões em massa da etnia uigur ou apoia manifestantes pró-democracia em Hong Kong.

“A China é um país economicamente importante. E nós também somos”, disse Kissinger. “Por isso somos obrigados a ficar pisando no pé um do outro em todo o mundo”, explicou. Kissinger foi o secretário de Estado do presidente Richard Nixon que, em 1971, retomou as relações com a China comunista. Desde então, ele mantém contacto com as autoridades do país asiático e, no ano passado, encontrouse com o presidente Xi Jinping, em Pequim.

Mas como os conflitos entre os Estados Unidos e a China até então sempre foram “passivos”, Kissinger agora alerta que não há estrutura para Washington lidar com Pequim como “uma potência militar”. “Se os dois lados continuarem a ver todas as questões do mundo em termos de conflito entre si, isso pode ser perigoso para a humanidade”, declarou na sua palestra. Kissinger disse que as negociações comerciais são apenas “um substituto” para conversas mais substanciais sobre conflitos entre os dois países, incluindo as actuais tensões em Hong Kong.

Quando indagado se a agitação na região semi-autônoma da China pode ser o ponto de partida para uma nova Guerra Fria, Kissinger disse esperar que essa questão “altamente emocional seja resolvida por negociações”.

Direção errada

O secretário de Estado do então presidente Nixon voou secretamente para Pequim em 1971, para iniciar negociações sobre novas relações entre os Estados Unidos e a China comunista. Kissinger ainda tem o respeito das principais autoridades chinesas, que dão a ele tratamento especial sempre que visita Pequim. Ele realizou uma reunião com o presidente Xi Jinping na capital chinesa em Novembro do ano passado.

Numa sessão posterior no fórum da Bloomberg, o ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, disse acreditar que Washington e Pequim “agora estão a ir exactamente na direcção errada”. Ele alertou sobre as crescentes barreiras aos vistos e à movimentação de pessoas, restrições ao comércio e à tecnologia, e que as tensões económicas em curso “deixarão os nossos países e o mundo inteiro numa situação pior”.

“Quando a próxima crise chegar, e vai chegar porque as crises financeiras sempre acontecem, lamentaremos muito o tempo perdido se as duas maiores economias do mundo não encontrarem mecanismos para cooperar”, declarou Paulson, que foi secretário do Tesouro do ex-presidente George W. Bush.

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