Sr. escritor, não é nada chique não escrever nas nossas línguas!

Neste momento em que repensamos a África, também devemos pensar nas suas línguas. Uma tarefa difícil num continente onde a colonização foi mais ou menos profunda, dependendo do lugar e colonizador.

O escritor e intelectual queniano, Ngũgĩ wa Th iong’o, que escreve em Kikuyu, a sua língua materna, desde 1977, sempre defendeu a necessidade de escritores africanos escreverem nas suas próprias línguas para descolonizar as mentes. Segundo ele, continuar a escrever em línguas estrangeiras não apenas lhes presta homenagem, mas também perpetua o espírito servil neocolonial no nível cultural.

Diz que enquanto discutíamos nos círculos próximos ao poder numa língua que excluía automaticamente do debate o camponês e a classe trabalhadora, a cultura imperialista e as forças reacionárias africanas tinham o campo livre. Pergunta porque é que os escritores africanos não podem escrever nas suas línguas, se mesmo a Bíblia está disponível em quantidades ilimitadas nas línguas africanas?

Também observa que o político africano mais reacionário, aquele que está pronto para vender a África, muitas vezes domina as línguas africanas; assim como no passado os missionários mais zelosos, que queriam salvar a África de si própria e especialmente as suas línguas, que consideravam « pagãs », possuíam um bom domínio das línguas africanas, para as quais frequentemente criavam sistemas de transcrição. Ironicamente, o Queniano afi rma que os escritores africanos acreditam muito na « literatura africana » para não escrevê-la nas suas línguas!Para acrescentar à ironia, ele pensa que o que eles produzem, pouco importa o que dizem, não é literatura africana.

É literatura inglesa, francesa ou portuguesa; e que a Academia Francesa teve razão em homenagear Senghor pela sua contribuição real e talentosa à língua e literatura francesas. Diz que criámos uma tradição híbrida entre muitas outras, uma tradição de transição, uma tradição minoritária que só pode ser chamada de « literatura afro-europeia ».

Reconhece, no entanto, que essa literatura produziu autores e obras de valor genuíno; Chinua Achebe, Wole Soyinka, Ayi Kwei Armah, Ousmane Sembene, Agostino Neto, Sedar Senghor etc. Mas diz que os escritos desses autores pertencem a uma tradição afro-europeia, que provavelmente durará enquanto durar o domínio da África pelo neocolonialismo.

Assim, a literatura afro-europeia pode ser defi nida como a literatura escrita pelos africanos nas línguas europeias na época do imperialismo. Aliás, além dele, muita gente concorda com a seguinte afi rmação de Obi Wali, um intelectual nigeriano: « A literatura africana só pode ser escrita em línguas africanas, nas línguas do camponês e da classe trabalhadora, que constituem, para cada uma das nossas nacionalidades, o principal instrumento da aliança de classes, o agente da próxima ruptura revolucionária com o neocolonialismo ». Ngũgĩ wa Thiong’o começou a escrever na língua Kikuyu em 1977, após dezassete anos na literatura afro-inglesa no seu caso. Diz que foi criticado por essa mudança onde quer que fosse, principalmente na Europa. É como se, 30 O PAÍS Sexta-feira, 22 de Novembro de 2019 escolhendo escrever na sua língua materna, ele tivesse feito algo errado.

O que faria sentido na prática literária de outras culturas é surpreendente para um escritor africano, diz ele, e isso mostra o quanto o imperialismo distorceu a visão das realidades africanas: o anormal passou a ser normal e o normal o anormal. Na realidade, a África enriquece a Europa; mas faz-se crer que ela precisa da Europa. A África produz até intelectuais que justifi cam essa maneira de vêla de cabeça para baixo.

Th iong’o, portanto, acredita que escrever nas línguas africanas contribui para as lutas anti-imperialistas dos povos africanos. Nas escolas e universidades, as línguas africanas foram – e continuam a ser – associadas a atributos negativos: atraso, subdesenvolvimento, miséria. Aqueles que estudaram nesse sistema de ensino deviam ter o ódio do povo, da cultura e dos valores da língua que lhes criava intimidações e humilhações diárias.

Th iong’o não quer ver as crianças africanas crescerem nesta tradição imposta pelo imperialismo; de desprezo pelas ferramentas de comunicação forjadas pelas suas comunidades e pela sua história. Quer que elas superem a alienação colonial. Para ele, a alienação colonial assume duas formas ligadas; distanciar-se activamente (ou passivamente) da realidade ambiental, identifIcarse activamente (ou passivamente) com o que é mais externo a essa realidade.

Começa dissociando deliberadamente a língua da conceitualização, refl exão, educação formal, do desenvolvimento mental e das relações quotidianas na família e comunidade. É como se separássemos o corpo e o espírito, de modo que eles ocupassem na mesma pessoa duas esferas linguísticas separadas.

No nível social, é como se alguém produzisse uma sociedade de cabeças sem corpos e corpos sem cabeças. Th iong’o, portanto, pretende ajudar a restaurar a harmonia entre todos esses aspectos desconexos da língua, a repôr a criança africana no seu meio ambiente, para que ela possa entendê-lo completamente e transformá-lo para o benefício de todos. Gostaria que as línguas maternas dos povos africanos produzissem uma literatura que refl etisse não apenas os ritmos da expressão oral da criança, mas também a sua luta com a natureza e a sua condição social.

A partir dessa harmonia, a língua e o meio ambiente, ela poderá aprender outras línguas e apreciar os elementos positivos, humanistas, democráticos e revolucionários das literaturas e culturas de outros povos, sem complexos no que diz respeito a sua própria língua, existência e o seu meio ambiente.

Assim, as outras línguas, estrangeiras ou nacionais, encontrarão o seu devido lugar na vida da criança africana. Portanto, não devemos deixar desprezar ou destruir as nossas línguas e muito menos deixá-las ser qualifi cadas como dialetos. A língua também é um instrumento político, um meio e uma prova de poder. É a chave da identidade, revela a identidade privada e permite conectar-se à identidade mais ampla, mundial ou local, ou dissociar-se, e as regras das línguas são ditadas pelo que elas devem transmitir.

E James Baldwin tem razão quando diz que a língua visa definir o outro e que devemos recusar-nos a ser defi nidos por uma língua que nunca nos reconheceu. Pois os povos desenvolvem uma língua para descrever e, assim, controlar as suas circunstâncias, ou para não serem dominados por uma realidade que não podem exprimir. Por exemplo, no caso da nossa « língua comum » com o antigo colonizador, a língua portuguesa, já pagámos o preço para a sua plena posse à nossa maneira.

Devemos, portanto, reivindicar os nossos sotaques, o nosso linguajar, como os Brasileiros fazem (eu preciso de um glossário para ler Darcy Ribeiro ou Jorge Amado!), uma vez que não dizemos nem podemos dizer as mesmas coisas com os Portugueses e que temos realidades muito diferentes para articular e controlar. Mas como chegar a isso no contexto angolano, onde a cena cultural é dominada por pessoas que só querem exprimir-se em português – orgulhosamente – e que, além disso, acham chique não conhecer as nossas línguas, porque esperam o reconhecimento de Portugal?

Como fazer nesse país, Angola, onde os historiadores mediatizados são ex-colonialistas como Pezarat Correia, que serviu Salazar, e outros lusotropicalistas, para que a proposta de Th iong’o tenha espaço ? Porque, no caso actual, não é de surpreender que nomes como Mbalundo, Mvemba, Nzinga ou Mbiyavanga se tornem insensatamente Bailundo, Vemba, Ginga e Biavanga, e achamos isso muito chique e civilizado! Isso já torna o projecto manco… É Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França.

É colunista do diário Folha de São Paulo (Brasil), do diário Público (Portugal) e do diário Libération (França). É cofundador e vicepresidente do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.*

error: Content is protected !!