Odiamos os nossos

Por:José Kaliengue

Olho para os noticiários portugueses, Jorge Jesus e Cristianos Ronaldo são presenças incontornáveis, assim como foi no início do século o neurocientista António Damásio, e continua a ser. Não adianta citar mais nomes, quer do desporto como da ciência, das artes, das finanças, etc.. Fico- me por aqueles a que os angolanos chegam sem qualquer esforço, mas são muitos. Têm em comum o facto de viverem e trabalharem fora de Portugal. Portugal aprendeu primeiro a viver com as receitas remetidas pelos seus emigrantes, agora aprende a crescer com os seus “emigrantes” notáveis. Não os larga, não os odeia, são presença permanente na comunicação social como exemplos da força de toda uma nação, que, apesar de pequena, pode vencer no mundo. E não se esquecem da origem. Nós não. Em Angola odeia-se quem tenha partido em busca do mundo, um impulso natural no ser humano. Odeiase mais ainda se tiver sucesso lá fora. É traidor, fecha-se-lhe as portas. Por isso não sabemos das proezas de milhares de pessoas com sangue angolano lá fora, no desporto, na música, na ciência, nas artes, em tudo. Aqui há a estúpida ideia de que angolano só pode viver em Angola e se estiver lá fora tem de voltar, que não se pode engrandecer o país a partir de fora. Por isso o nosso mundo é tão pequeno, por isso somos tão desconhecidos pelo resto do mundo, por isso temos tão poucas glórias para cantar. Eduardo Nascimento, o segundo negro a pisar o palco do Eurovisão, em 1967, morreu esta semana, ele nasceu em Luanda, em 1943, quantos angolanos sabem dele?

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