Uma boleia com sabor a…morangos

Por:Edy Lobo

Deambu l ava a velocidade lenta pelas artérias e veias da nossa capital, augurando satisfazer vontades que de mim se apossavam há já um par e tal de semanas. Era uma vontade que cheguei a pensar que a contestação e revolução feminina, a tal de emancipação, efectivou-se e fez um reverse na biologia dos géneros humanos sendo possível nós homens estarmos concebidos ao invés delas, tal acontece com os cavalosmarinhos. Morangos eram as ânsias naquele momento. Pacientemente fui buscando com os olhos sedentos e esfomeados pelos mesmos na via. Numa rotunda duma zona bem movimentada quando já se aproximava a hora de ponta, noto que uma jovem senhora comercializava os mesmos em pequenos potes devidamente identificados. Pensei comigo: “ Poderia até parar para entrar num estabelecimento comercial e adquirir os mesmos para que não tenha motivos de reclamação caso algo de errado aconteça após a degustação dos mesmos”. Mas a seguir pensei: “ Mas assim mesmo já estou a vê-los aqui, vou ignorar estes e ir mais para uma loja para adquirilos? Porquê não ajudar essa pobre moça que traz o seu bebé nas costas que decerto precisa de ser alimentado e o único fundo monetário possível para que se efective tais intentos está na venda dos morangos?”. Foi uma luta acérrima que em mais ou menos 30 segundos enfrentei, entre a razão e o certo. Então decidiMoça vem… Lá ela seguiu-me correndo enquanto eu procurava um sítio seguro para parar o carro e assim poder efectivar o pagamento do produto de forma segura e tranquila. – Quanto custa cada pacote de morango? É “mili” pai. Estão em condições mesmo? Mas pai, eu dependo deste negócio para dar de comer meus filhos vou mais fazer brincadeira para estragar minha vida? Num fagisso. Observei meticulosamente cada pacote para assim poder escolher dois dos mesmos e levar comigo. De facto tinham uma boa aparência e o avermelhado deles eram tão convidativos que a vontade era mesmo “sarrebentar” com eles antes de lavá-los. Pago os mesmos, ela agradece e pusme a andar. Nem 2 dois metros de distância tinha eu percorrido e oiço um “psiu” açucarado que despertoume a atenção e prontamente parei o carro. Moço tudo bem? Dá-me só um morango, por favor. Ai meu Deus; é muita sorte junta – monologuei no silêncio. Queres um morango?-perguntei. Se não for incómodo, com uma boleia, agradecia. – Queres apenas o morango ou o pacote completo? Quando dizes “o pacote” é a ti que te referes? – questionou-me de forma muito perentória. Se ambos formos suficientes para satisfazer as tuas vontades, eu não vejo problema algum em doar- me. Com um sorriso muito maroto chamou a amiga que não tinha , mas que estava com ela e entraram para o carro. Estava tudo muito bom para quem só procurava morangos e acabava por levar dois tipos de sobremesa. Deitando conversa fora, entre absurdos e algum aquecimento verbal para que o momento não passasse monótono, disseram seus nomes, pelo que já nem me lembrava porque pouco valor tinham perante aquelas carnudas e aveludadas coxas que confundi com a alavanca de alteração das velocidades do veículo. Enquanto falávamos, notei que ela estava constantemente a mexer na sua pasta e a amiga que atrás ia, pouco falava. – Para aonde é que vamos mesmo? – Pergunta infeliz. De repente, sinto um objecto fresco e cortante que me beijou a garganta vindo da parte de trás e a menina que, à frente, comigo vinha sacou de uma arma da pasta e apontou-me na zona lateral do abdómen. Encosta o carro, entrega tudo o que cá tens ou te mandamos para o outro lado da vida sem remorsos. Tudo dito numa voz dócil que nem parecia assalto. A Minh ‘alma já me tinha abandonado naquele momento. Já eu era um ser meio vivo e meio morto. Só me questionava: “Por causa de morango mesmo vou morrer?”. Obviamente que não eram os morangos apenas mas a minha imperdoável e desmedida “apetite” estavam quase a transportar- me para os aposentos de Lúcifer e por uma causa justa, diga-se de passagem. Encostava o carro devagarinho, quando simulei para a direita e depois para a esquerda, oiço um disparo e… Acordo! Rapidamente pego no abdómen, muito agitado procuro pelo meu pescoço que no meu corpo ainda intacto estava e comecei a chorar. Em seguida abri a Bíblia e comecei a ler um capítulo qualquer mesmo antes de ter feito o sinal da cruz. Depois de ter lido o livro sagrado não sabia se odiava morangos, se odiava as moças que pedem boleia ou a mim mesmo dono de um apetite volupto descomunal.

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