Igreja Universal em crise

Bispos e pastores da igreja Universal do Reino de Deus em Angola em discórdia com a liderança brasileira. Acusam a liderança de vender, sob a orientação de edir macedo (fundador), mais de metade do património da igreja; de mandar divisas para o exterior, para além de submeter os pastores à vasectomia

Um grupo de bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola concentrou- se ontem, às 13h, na catedral do Maculusso, em Luanda, para manifestar o seu descontentamento com o rumo que a igreja está a tomar, resultante de algumas atitudes quer têm como sendo menos boas da liderança de brasileiros em Angola, que, alegadamente, recebem orientação de Edir Macedo, líder máximo e fundador da organização. Indivíduos que são pastores há 13 anos, e outros mesmo há 16 anos, estiveram no local para denunciar o que se está a passar e pôr fi m à atitude que, segundo eles, desvia os objectivos pelos quais a IURD – Angola foi criada.

Os pastores que tiveram contacto com o jornal OPAÍS não falaram muito, pelo que preferiram dar-nos o mesmo manifesto que circula nas redes sociais, documento no qual vêm espelhadas as razões que levaram à discórdia. O manifesto, datado de 28 de Novembro, diz que são no total 330 bispos, pastores, obreiros e membros angolanos que não concordam com o comportamento e práticas da liderança brasileira, tais como a evasão de divisas para o exterior.

“Nos últimos doze meses, a anterior e actual liderança brasileira, por orientação do bispo Edir Macedo, têm forçado os pastores solteiros e casados a submeterem- se a um procedimento cirúrgico de “esterilização”, tecnicamente conhecido como vasectomia. Dizem que “são claras as violações graves dos direitos humanos, da lei e da Constituição da República de Angola, práticas estas que são estranhas aos costumes da nossa realidade africana e angolana”, lê-se, no manifesto.

Acusam ainda a liderança brasileira, sob orientação do bispo Macedo, de vender mais de metade do património da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola, sem prévia consulta aos bispos, pastores, obreiros e membros angolanos. O património inclui residências e terrenos que foram adquiridos e/ou construídos com os dízimos, ofertas e doações dos membros de Angola. “A decisão do Bispo Macedo, de vender o património acima referido, foi transmitida em reunião secreta em Luanda, presidida pelo bispo Honorilton Gonçalves, em que apenas alguns poucos pastores e bispos brasileiros participaram e nenhum bispo/ pastor angolano teve acesso, nem sequer o representante legal da Igreja”, reforçam.

IURD-Angola tenta a “independência”

A IURD-Angola é uma instituição religiosa de direito angolano, registada no Ministério da Justiça, com a missão, conforme os estatutos, de pregar o Evangelho, prestar assistência espiritual e social às famílias angolanas e não só. Ao longo dos 27 anos da sua existência tem recorrido à IURD – Brasil para o envio de missionários brasileiros, o que criou um vínculo espiritual com esta ao ponto de dar-lhe a liderança e domínio absoluto da IURD-Angola. Hoje, os manifestantes não têm dúvidas de que a atitude da liderança brasileira é uma clara demonstração de que os objectivos deixaram de ser os “da pregação do evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo”, bem como uma traição à confi ança que os membros, obreiros, pastores e bispos angolanos depositaram na referida liderança.

Diante de tais actos e pela gravidade dos mesmos, em respeito aos princípios da fé cristã, o corpo de bispos e pastores da IURDAngola decidiu, em fórum próprio, pôr fi m a qualquer vínculo com a liderança brasileira e com a IURD – Brasil, pelo que a mesma liderança deverá deixar o território nacional dentro dos prazos estabelecidos pelas autoridades migratórias. Contactado via telefónica por OPAÍS, Jimmy Inácio, porta-voz da IURD-Angola, confi rmou a autenticidade do manifesto que traduz esta peça noticiosa, bem como os problemas apresentados.

Ele disse ainda que deixava de porta-voz da Igreja, isso desde ontem, porque, como detentor deste título teria de “defender a liderança brasileira” – algo que não está disposto a fazer. “São informações caluniosas” Num comunicado chegado a OPAÍS, assinado pelo presidente do Conselho de Direcção da IURD-Angola, Bispo António Pedro Correia da Silva, este repudia a “rede difamatória e mentirosa que se difundiu no dia 28 de Novembro de 2019, através das redes sociais e media tradicional que, de forma leviana informa o desvinculamento da igreja em Angola da liderança mundial”, lê-se.

O presidente disse que a Igreja Universal Angola continua mais forte do que nunca, de Cabinda ao Cunene e nos lugares mais remotos do país. Sempre se pautou pela moralidade, respeito pelas autoridades constituídas e legislação vigente. Segundo o bispo António da Silva, este grupo é de ex-pastores desvinculados da instituição por desvio moral e de condutas até criminosa que têm arquitectado uma rede de mentiras, por não terem a sua ganância saciada.

“Continuamos unidos, Bispos, Pastores, Obreiros, evangelistas e jovens, com o propósito fi rme de levar o Reino de Deus e expandir o evangelho aos quatro cantos do mundo. A IURD já está a tomar medidas judiciais plausíveis para responsabilizar os autores dessa rede difamatória”, disse. Para fi nalizar, o pastor citou um versículo bíblico “bem-aventurados sois quando, por minha causa, nos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós”, Mateus 5, 11.

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