“Os políticos deviam casar-se com a arte, para que tenham noção do que dirigem”

O artista plástico, António Tomás Ana, conhecido nestas lides artísticas como etona, onde labuta há mais de 40 anos, defende a presença de artistas no seio dos partidos políticos no país, devido ao factor fi losófi co e espiritual que possuem, o que, segundo ele, facilita na descrição dos vários problemas através da expressão artística

O escultor, dono de uma carreira internacional, através de exposições e a aquisição das suas obras em várias partes do mundo, em 2020 pretende inaugurar o seu Centro Cultural, na Chicala II, município de Luanda. Segundo ele, o espaço foi erguido a fim de contribuir para o desenvolvimento do país, por via do debates sobre matérias filosóficas, nos quais os intervenientes poderão partilhar ideias Pretende inaugurar no próximo ano o Centro Cultural.

Qual é o raio de acção desse espaço?

O centro será inaugurado provavelmente no segundo semestre do próximo ano e está situado na Chicala II, no município de Luanda. Possui dois andares, sendo que na parte inferior vão funcionar os escritórios. No primeiro piso teremos a “Ofi cina das Ideias”, onde serão realizados debates sobre questões fi losófi cas, enquanto a biblioteca vai funcionar no segundo andar e será apetrechada com livros, maioritariamente de fi losofi a. Teremos ainda uma suíte para acolher as várias individualidades, como cientistas que vierem fazer o seu trabalho de investigação.

Estamos a falar de especialistas nacionais ou também internacionais?

Estou a falar dos investigadores e cientistas que se candidatarem, tanto do país como do exterior, desde que as suas candidaturas sejam aprovadas. A sua estadia será no máximo de 15 dias e as necessidades básicas serão da responsabilidade do espaço. Ainda que essa pessoa não esteja a trabalhar directamente com o centro, há-de benefi ciar dessa hospedagem, independentemente da área em que vai trabalhar. Portanto, esse espaço foi construído a pensar no desenvolvimento do país.

Como surge a iniciativa para a criação deste centro?

A dada altura, em Washington (Estados Unidos da América), conversava com um cidadão americano, que disse que dava aulas de Língua Portuguesa em vários estados. Questionei-o sobre o número de artistas angolanos que conhecia. Para minha surpresa notei que sabia apenas de alguns renomados e de mais ninguém. Mesmo em Portugal, durante uma palestra, aconteceu a mesma coisa. Então, cheguei à conclusão que nunca tivemos condições de receber algumas individualidades, como estudiosos e cientistas, que quisessem fazer um trabalho ligado à sua área de trabalho.

Por que razão o espaço deverá apenas receber debates relacionados a assuntos fi losófi cos?

Isso porque comprovei que as nações se desenvolveram através da Filosofi a. Testemunha disso é a Ásia, cujo crescimento deveu- se mais à questão da existência de condições fi losófi cas. Sou membro do Congresso Internacional de Filosofi a e das vezes que realizam os encontros, são apenas um ou dois países que aparecem. Mesmo ao nível do nosso país, muitos no princípio seguem essa área, mas depois vão para uma outra. E mais, daquilo que se pode ver é que, para os ocidentais, os africanos não podem falar sobre fi losofi a. Mesmo a analogia que se faz de alguns fenómenos ao nível do continente, se limita à questão bíblica ou religiosa, nunca a questões filosóficas. Por isso, os livros que farão parte da biblioteca serão maioritariamente de filosofia, uma vez que tenho um manancial bibliográfico nesta área.

Tem alguma experiência no assunto?

Estava a fazer por correspondência numa universidade americana o curso de filosofia, mas por questões da inexistência de grandes debates ao nível do país, praticamente não desenvolvi muito essa área. Tenho a convicção própria de que se o continente africano quiser desenvolver- se, tem que entrar numa conduta de análises de fenómenos baseados na Filosofia.

Caso não queira, não estaremos a fazer nada, e essa questão de dependência vai permanecer. Se formos a analisar o budismo, mesmo no silêncio, quando começou a invadir a China, justamente os chineses tiveram que levantar o confucionismo, apesar de serem abandonados ou não quiserem saber de Confúcio na altura.

Mas quando acharam que haveria a questão de se defender, defenderam-se pelas ideias de Confúcio. Por isso, em todos os países onde haja embaixadas chinesas, funciona o Instituto Confúcio, e, por conseguinte, o nosso país conta exactamente com um. Então, aconselha a que os governos africanos apostem mais nesta disciplina? Para mim não é possível os governos africanos discutirem questões de carácter económico e político, quando eles próprios não falam de filosofia.

Mesmo ao nível da formação, os professores nos vários debates em que aparecem, tanto na televisão quanto na imprensa, ninguém fala disso, porque é um vício que o ocidente nos legou. Por isso, a contribuição que posso dar para a nação angolana e africana é neste contexto. E quanto a projectos artísticos? Como vê esse quesito? Estou maduro em termos de arte. Amadureci, porque antes de querer fazer arte ou logo mesmo ao começar, queria aprender mais. Por isso, andei por quase todo o mundo para entender como funciona a arte. Mas como sou angolano, voltei para o meu país.

Sou um cidadão do mundo. Tenho monumentos em Portugal, na Coreia do Sul, África do Sul e nos Estados Unidos da América. Então, não sou um artista ínfimo para falar da vida real das artes no país.

Quais são as suas responsabilidades ao nível das artes plásticas no país?

Uma das responsabilidades que tenho na área das artes plásticas, que me foi deixada pelo mestre Vitex é a de ajudar os outros artistas.

Então, o que vejo face à crise, não está a ser fácil ajudar, uma vez que o mercado foi consumado pelos estrangeiros. Desculpa dizer, mas é a verdade. Como assim?

As coisas estão bem ditadas e visíveis. Uma das coisas que fiz agora é voltar para mim mesmo e recuperar. Dizer que não: o que eu estou a assistir posso transformar em obras de arte, para que quando eu morrer haja uma ressurreição antropológica das minhas ideias. Assim, as pessoas saberão do tempo e do lugar em que vivi e o que foi que constatei. Por isso, faço esculturas e pinturas para que as pessoas se determinem, e se visualizem a elas próprias.

Apesar de que a arte faz mal a algumas pessoas malévolas, pouco sensíveis à vida humana. E para quando a sua próxima exposição?

Gostaria de fazer uma exposição como angolano, para fazer respeitar a honra deste povo. Se esta acção dependesse somente das obras, faria hoje mesmo. Mas infelizmente o nosso país não tem condições para acolher grandes mostras como a minha. Ao nível em que me encontro não há um espaço adequado, porque cresci como o país cresceu e hoje há insuficiências. Porquê? Para uma actividade como a minha é preciso ter um grande galpão, porque tenho obras com dimensões muito alteradas, e também o peso implica movimentar máquinas grandes, viaturas empilhadoras, como camião com grua, para transportá-las e serem descarregadas com sucesso. Uma obra minha feita de toro de madeira maioritariamente pesam de 200 a 500 quilos. As pessoas que deviam apoiar não o fazem.

Não é fácil um angolano ser apoiado pelo próprio angolano. E nas exposições realizadas anteriormente, não teve a mesma dificuldade?

Já expus as minhas obras no Centro Cultural Português, onde as estruturas de média tensão foram expostas na varanda. Coisa que não dá dignidade nenhuma para um artista como eu, expor as peças ao ar livre. Depois, trabalho com matérias orgânicas, como é o caso da madeira, e o tratamento que é suposto levar não pode estar fora de casa. Tem de ser num galpão, no mínimo com seis metros de altura, onde podem entrar camiões. Na última exposição que fiz em França, no ano passado, com o apoio do general Higino Carneiro, as esculturas foram num contentor de 40 pés.

O que acontece é que os grandes armazéns na cidade foram transformados em agências bancárias, igrejas e outros, mas espaços vazios onde possa fazer uma exposição não existem. Como idealiza essa mostra? Não gostaria que fosse num espaço onde as pessoas entrassem de ‘caxexe’. Tem que ser uma coisa aberta, onde o meu povo, desde a primeira figura do país teria o direito de a visitar. Mas como angolano, as coisas estão um pouco difíceis, porque perdemos a economia.

E agora que parece estar a se privatizar quase tudo, não sei o que sobrará para nós. Esse trabalho só não aconteceu ainda por dificuldades políticas que é imposta aos angolanos. A que se refere exactamente?

É importante que isso seja muito bem claro! Sou angolano e sinto essa dificuldade de encarar a situação política do país. Se não houver dificuldades políticas, claro que haverá dinheiro. Se houver atenção para os angolanos, vai haver dinheiro. Com os angolanos que estão como ministros, administradores e governadores, não está fácil manter uma conversa com eles, porque todos tornaram-se importantes. Defendo que o país não tem problemas financeiros, mas sim políticos. Apesar destas dificuldades continuo a trabalhar, porque é difícil travar um artista da sua arte. Devo realçar que não sou um pedinte ou infeliz, nem um frustrado. Quero apenas ser um artista no meu país, mas infelizmente nesta Angola não há a lógica de se tratar bem as pessoas que deveriam ser bem tratadas. Como acha que o Estado devia tratar os artistas? Dentro de um país o artista é como um crente na igreja, onde o padre tem a atenção virada para os seus fiéis. Ele deve ouvir todos os filhos. Não preciso de ir viver no exterior, para depois vir aqui para ser ouvido. Agora, quem é que eles estão a ouvir? O problema é esse! Tem-se dito que não há ‘engraxadores’, nem a corrupção. Então, estão a ouvir mais estes, e os formadores não são ouvidos. Já agora, o que expressam as suas obras de arte? A maior parte delas tem a boca em destaque, devido às calúnias. Muitos mesmo sem que saibam a verdade dos factos ficam nos cantos e fazer difamações. Tento retratar isso nas minhas obras. Também é por isso que os políticos fogem de mim, porque critico todos eles. Eu abordo os males dessas pessoas, através das minhas esculturas. Os indivíduos vêem os seus males nelas e ficam assustados. Por isso é que não faço máscaras. Onde adquire a madeira para a confecção destas obras? Quando há uma obra onde o Governo Provincial pretende cortar árvores, sou chamado, pelo facto de possuir materiais adequados, moto-serras… Disse anteriormente que está mais maduro. Isso em termos profissionais? O processo artístico não implica apenas fazer bonecos ou pintar quadros. É preciso introduzir a questão filosófica no processo de criatividade. Por exemplo, tenho medo de pintar e de esculpir, para não chocar com aquilo tudo que fiz, ou tudo que já vi ao nível do mundo. Então, essa lógica da minha forma de ver leva-me a não fazer seja o que for. No ensino da ciência, mesmo na questão de leitura dizse que não devemos ser ‘gulosos’. Que devemos seleccionar aquilo que vamos ler, para manter a nossa cabeça dentro do que gostaríamos de aprender. Tudo isso são factores que podem conduzir essa condição de dizer que praticamente considero- me tão maduro em termos das artes. Esses são os factores? Sim! Digamos também que o artista é um médico terapêutico, porque muita gente, entre engenheiros e doutores, ligam para essas pessoas e expõem os seus problemas. Apesar de não termos essa capacidade, mas esse factor filosófico e espiritual nos possibilita fazer uma obra de arte, que reflecte aquilo que estão a sofrer. Os países que se desenvolveram, como a Grécia Antiga e a Roma, dentro desta pirâmide sempre esteve o artista junto do crescimento. Por isso é que havia a pista da corte, artistas plásticos, poetas e escritores. E hoje, praticamente um ou outro tenha atingido essa maturidade. O artista é também um conselheiro. Pena que no parlamento não temos artistas. Justamente, esse é o desprezo que existe, a falta de respeito por todos nós. Os partidos políticos deviam casar-se com a arte, para que tenham noção do que dirigem. Eles, às vezes, são oportunistas, por isso é que a maior parte deles são juristas. Sem querer menosprezar essa gente, mas temos visto que esses homens do Direito são oportunistas, ou egoístas no bom sentido. Por isso é que a maior parte dos políticos são juristas. Espero não ser penalizado por estar a dizer isso.-

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