Província de Luanda com Escola na Rua

Cento e oitenta crianças, dos cinco aos 16 anos de idade, encontram-se diariamente ao entardecer na convergência dos bairros da Samba Grande, Morro da Luz e Rocha Pinto, distrito urbano da Maianga, em Luanda, para assistir às aulas no projecto Escola na Rua.

Fonte: ANGOP

Escola na Rua é um projecto educacional criado pelo jovem João Aldemiro Japão, numa ruela denominada Banga Wé (faça também, em português) para que crianças angolanas tenham acesso ao ensino gratuito, mesmo na rua, tal como tinha noticiado OPAÍS em Setembro, logo a seguir a um período de tumultos no Rocha Pinto. João Japão e amigos ministram aulas para crianças residentes nas cercanias do Banga Wé e para algumas provenientes de zonas distantes. Munidos de bancos de diversos feitios e cores, as crianças, quer as que estão fora do sistema de ensino como as que frequentam as escolas oficiais, começam a dirigir- se à Rua de Serviço Interior à Estrada da Samba, onde é montada a “escola”, a partir das 16h.

A iniciativa começou em Agosto de 2019, com apenas 15 alunos, depois da Comissão de Moradores (CM) ter indicado João Japão como um dos responsáveis. Por sua vez, João Japão propôs a execução de projectos comunitários ligados à Educação, Saúde e saneamento básico. Como membro da CM, criou o projecto Escola na Rua, também conhecido por explicação na rua, ministrando gratuitamente aulas para algumas crianças, primeiro na sua residência, depois estendendo- se para a rua, com o aumento do número de interessados .

Dificuldades no arranque

Em declarações à Angop, o mentor do projecto disse que para a sua efectivação convidou outros jovens que exigiram remuneração, atitude que o deixou chocado, visto que era algo que pretendia efectivar de forma gratuita, por amor ao próximo. Frustrado com o comportamento dos amigos, pensou em desistir da iniciativa, mas foi o seu pai, um profissional da Educação, que o encorajou a prosseguir com o projecto. Informou que das 180 pessoas inscritas, 50 por cento estão fora do sistema do ensino, encontrando- se as restantes a frequentar escolas públicas e comparticipadas.

Na actividade educativa, para além das disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, é também leccionado Educação Moral e Cívica (EMC), para as crianças da iniciação a quarta classe, no período das 16H30 às 18h00. Os adolescentes da sétima à nona classes frequentam o projecto das 18h00 às 19h00 e aprendem Matemática, Língua Portuguesa, Biologia, Física, EMC, Química e Artes Cénicas. Leccionam no projecto Escola na Rua 10 jovens, de ambos os sexos, alguns com o ensino médio, outros a frequentar o ensino superior e já licenciados. João Japão refere que o projecto acolhe também algumas crianças com necessidades especiais, cujas causas de insucesso escolar nem os professores nem os pais conseguiram detectar, durante anos.

“Temos crianças que durante anos permaneceram na mesma classe e os pais e professores não conseguiram identificar se era um caso de deficiência na atenção ou problemas de dislexia”, lamentou. A atenção às crianças e adolescentes que padeçam de dislexia, que é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, será efectiva porquanto o projecto vai trabalhar com uma psicóloga. O mentor, a frequentar o terceiro ano de psicologia na Universidade Agostinho Neto, precisou que voluntários são aconselhados a ter mais atenção com as crianças que apresentem comportamento fora do normal, como falta de atenção, fraco aproveitamento e outras situações, até que sejam avaliados pela especialista.

Ensino de adultos

João Japão revelou que o projecto Escola na Rua pretende constituir nos próximos meses uma turma de adultos, já que muitos encarregados de educação iletrados pretendem aprender a ler e a escrever. “Temos recebido muitos pedidos de adultos para que seja aberta uma sala de alfabetização. Muitos homens e mulheres desistiram da escola há muito tempo e pretendem aumentar os seus conhecimentos”, referiu. Para manter-se “ vivo”, o projecto tem recebido apoio moral e material (bancos, quadros e livros) de pessoas singulares, gesto que permitiu a criação de uma Biblioteca Móvel com mais de 70 livros diversos.

A Biblioteca Móvel é montada na ruela Banga Wé, apenas nos fins de semana, permitindo que as crianças que frequentam a escola e outros interessados tenham acesso aos livros. Para além do ensino, o projecto conta com o grupo de teatro ABC, cujo objectivo principal é descobrir novas valências para que os jovens tenham os tempos livres ocupados e contribuam no mercado das artes cénicas. De acordo com dados da Repartição distrital da Maianga, mais de 12 mil crianças ficaram, este ano, fora do sistema de ensino e 12 novas escolas do ensino de base são necessárias para a comunidade.

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