Se calhar não mudou nada

Uma coisa é falar, outra é a realidade física, se me é permitido usar a expressão. No nosso país há muita gente que acredita que as palavras têm força suficiente para por si só gerarem uma verdade material. E vamos “destruindo a realidade” apenas porque acreditamos nas palavras que se repetem vezes sem conta.

É como alguém estar a morrer de fome e acreditar que não tem fome apenas porque alguém lho disse e esta pessoa repete o predicado. No campo político, está mais do que na moda falar-se em abertura, liberdade de expressão, mudança de paradigma, etc.. Isto é o que se diz. Talvez algumas pessoas tenham incorporado tudo isso no seu espírito e modo de agir, outras acham que basta falar, sem se afastarem um milímetro das práticas de sempre.

O jornalista Paulo Sérgio escreveu um livro que acaba por ser uma reportagem mais completa da sua cobertura ao processo chamado de burla tailandesa. Ele seguiu a história toda, pesquisou, falou com intervenientes e implicados, colheu mais informação. É um contributo para a memória futura. Muitos best sellers noutras partes do mundo resultaram deste tipo de produtos e espero que surjam em Angola mais obras deste género, para o bem do nosso jornalismo, da nossa história, da nossa democracia.

Acontece que a apresentação do livro esteve inicialmente marcada para a União dos Escritores Angolanos, para a semana passada, mas não aconteceu, em cima da hora surgiu uma “reserva anterior” da sala. E para as datas imediatamente a seguir também “não havia espaço”. E eu que julgava, teimoso, que num santuário de escritores ainda sobrevivesse um fiapo de liberdade, envergonho-me de ter assim pensado, como os que acreditam que palavras são quanto baste

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