Há pobreza na base sim

Este país precisa de ser reiniciado. Parece que roubar é um acto natural e obrigatório como respirar. Todos os dias ouço relatos de roubos. Se não roubaram o dinheiro da senhora que trabalha em casa, então um vizinho foi assaltado no táxi. Nas empresas, amigos meus queixam- se de folhas de papel que desaparecem, de motoristas que roubam peças dos carros para vender e depois trazem umas gastas para dizer que avariaram. Já não há casa segura. Os bancários roubam e colaboram na morte dos clientes, os altos funcionários do Estado, até membros do Governo, engendram formas de levar dinheiro para os seus bolsos, as denúncias são muitas, só de casas em Lisboa dava para ver o quanto já foi roubado a este país. Não sei se alguma vez isto terá cura. O Presidente diz que nada disto, destes crimes, podem ser justificados com a pobreza, talvez não seja bem assim, do meu ponto de vista. Tudo começa na pior das pobrezas: a espiritual. Este país deu-se ao “luxo” de permitir que o roubo por via do ensino privado destruísse a educação, permitiu que o roubo, por via das clínicas privadas, destruísse a saúde pública, permitiu que livrarias e bibliotecas fossem fechadas, que o álcool e a ostentação despudorada passassem a fazer parte de um estilo de vida tido como exemplar. Permitiu, e permite, e o Presidente sabe disso, que alguns angolanos estudem lá fora, se tratem lá fora com meios ditos próprios, sem terem como os justificar. Tudo isto criou uma miríade de pobres, não se pode esconder, a que se juntou, tanto nestes como nos abastados, a pobreza espiritual. Não pode haver regras mínimas numa sociedade assim. Não é o dinheiro, é o mínimo de educação e de valores.

error: Content is protected !!