Comunidade Angolana no Brás tenta a união para melhor rentabilizar

Alguns dos membros deste conjunto possuem cargos sociais, enquanto outros, a maioria, dedicam-se ao comércio. Têm uma roda de conversa organizada duas vezes por mês, com o objectivo de traçar planos estratégicos para rentabilizar os seus trabalhos

Antónia Gonçalo, em São Paulo
fotos de Inocêncio de Oliveira

A comunidade Angolana no Brás, que existe há cerca de 20 anos, situado no município de São Paulo, Brasil, pretende ver os seus membros mais próximos para, deste modo , traçarem planos que impulsionem as suas actividades económicas naquele país. Por essa razão, mensalmente é realizada a “Roda de conversa”, onde desenvolvem questões comerciais, através dos membros que apresentam sugestões com base nas suas experiências. Alguns destes possuem cargos sociais, enquanto outros, a maioria, dedicam-se ao comércio, como a venda de comida típicas de Angola, em restaurantes, troca de moeda, venda de roupa e calçados na “Feira da madrugada no Brás”, que vai desde a meia-noite até às 4 horas. Mais de 100 membros fazem parte desta comunidade.

Durante o primeiro encontro realizado em Novembro, o presidente da comunidade, João Miguel, detentor de conhecimentos na área fi nanceira devido ao cargo que ocupa numa empresa local, referiu que a intenção é traçar planos de acção para promoverem e tornarem o conjunto mais activo. “Tivemos a iniciativa da realização de um rol de palestras para mostrar aos membros a importância da união e a compreensão dentro da comunidade”, enfatizou.

O dirigente, que se mostrou empenhado em colaborar com os membros deste conjunto, disse que têm tido problemas de comunicação com o Consulado Angolano em São Paulo na realização de suas actividades. Mas com a nova gerência do espaço, a nomeação de um novo cônsul desde o mês passado, João Miguel espera por dias melhores. “Veremos como ela vai trabalhar. No primeiro encontro que tivemos mostrou que vai trabalhar com a comunidade”. Este encontro contou ainda com o contributo de Marcelo Carvalho, formado em Marketing, residente no Brasil há nove anos. Sugere que se crie oportunidades para aqueles que obtêm a sua rentabilidade através do comércio, para monopolizarem e transformarem as suas acções em grandes negócios. O também especialista em Gestão de Projectos fez esta constatação por ter observado que actualmente o Brasil e a China, serem um dos principais parceiros de Angola. O desenvolvimento de alguns projectos só será possível com os angolanos residentes no Brasil, caso haja união e troca de experiência.

Já o empreendedor Ander João referiu que pretende fazer com que a juventude seja mais participativa, através da conexão dos intelectuais. “Pretendemos fazer com que trabalhemos juntos e produzamos mais conteúdos, de modo a transformar isso numa economia sólida, aqui no Brasil, e podermos assim contribuir grandemente para o desenvolvimento do nosso país, mesmo estando distante”, observou,

Orientações

O advogado Osvaldo Bastos, no encontro, abordou o direito como regra e meio de investimento, com a intenção de orientar os associados nos seus direitos e nas suas obrigações. Osvaldo lembrou que qualquer sociedade vive com regras. “Então, se você não se adequar a elas, podes transgredir e correr o risco de ser preso. Mas uma sociedade organizada pode usar a lei a seu favor. Por isso, é preciso que trabalhemos com a lei e em prol da lei, para melhor viver e implementar os nossos projectos”, aconselhou.

Comerciantes

Defronte ao Hotel Vitória, frequentado grandemente por angolanos, funciona um bar, pertença do cidadão Osvaldo Cruz, em parceria com o seu tio. O cardápio é dominado por pratos típicos angolanos. O mais caro chega a custar 25 reais (2 mil e 824 Kwanzas e 78 cêntimos), acompanhado com peixe tilápia (chopa), enquanto o frango guisado é a refeição promocional, que custa 10 reais (mil e 129 Kwanzas e 91 cêntimos). Para além dos angolanos e brasileiros, o espaço é muito frequentado por cidadãos de outros países africanos, como congoleses, senegaleses e moçambicanos, que fazem comércio nos arredores. O dono do restaurante considera a frequência de cidadãos angolanos como uma ajuda para o crescimento do seu negócio.

“Por isso, o nosso cardápio é diversifi cado, de modo a agradar a todos. Somos uma referência aqui no Brasil. Basta apenas entrar nesse espaço que se sentem em Angola. O prato mais solicitado é o funje, por ser uma curiosidade para muitos ”, contou. Quanto ao investimento feito, referenciou que a iniciativa surgiu por terem observado que o negócio seria rentável, para assim poderem subtrair lucros que possam suprir as suas necessidades diárias. Por essas e outras, Osvaldo considera-se um vencedor nas terras brasileiras. “Apesar de ainda não estar a ter o retorno do valor investido, só o facto de ser uma referência nessa área , sinto-me um vencedor. Sabemos que estamos longe dos nossos familiares e não é fácil viver na diáspora. As coisas aqui são difíceis, o custo de vida é alto, por isso tentamos ajudar naquilo que podemos”, esclareceu.

A cantora gospel Sónia Inglês,que vive no Brasil há 14 anos, tem uma inclinação para a música, por infl uência dos seus pais que cantam na igreja. Por essa razão, a também estudante de Medicina, que vive noutra região da cidade, é solicitada para cantar em várias actividades celebrativas. Apesar de ter participado num grupo “African Single”, há quatro anos que efectuou o lançamento de uma obra discográfi – ca, ela pretende em breve lançar um disco a solo. A união existente entre os angolanos no Brás faz com que Sónia se sinta em casa. “É uma união que não vejo na minha anterior comunidade, a Hortolândia. Há uma ligação extraordinária, independentemente do sexo. Por isso, podemos dizer que aqui é o nosso pedaço de Angola”, rematou.

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