90% das crianças autistas de Luanda desistiram da escola este ano

A Associação de Apoio a Pessoa Autista e Transtornos Globais de Desenvolvimento (APEGADA), que controla mais de 400 crianças na capital do país, disse que as crianças não terminaram o ano lectivo por alegado descontentamento das escolas e professores, deido supostamente a não estarem preparados para lidar com esse tipo de patologia

Por:Milton Manaça

O responsável da APEGADA, António Teixeira, disse a OPAÍS que no princípio do ano lectivo a associação aconselhou os pais a colocarem todas as crianças menores de 12 anos em escolas próximas das suas residências, mediante uma garantia dada pelo Ministério da Educação, de que todas as escolas eram inclusivas. “Os pais foram contactados e foram- lhes indicadas as escolas inclusivas, onde acabaram por matricular os seus filhos. Mas ficamos surpreendidos ao nos dizerem que essas crianças não terminaram o ano lectivo”, disse António Teixeira. Na maior parte dos casos, de acordo com António Teixeira, as escolas informaram os pais que não tinham estruturas nem quadro docente preparados para lidar com crianças com o espectro do autismo. “Diziam que as crianças incomodavam outros colegas e os professores não conseguiam trabalhar à vontade.

Os pais, movidos por esses lamentos, preferiram retirar as crianças da escola e mantê- las em casa”, queixou-se António Teixeira. Este é um dos assuntos a retratar esta semana numa conferência a ser realizada pela APEGADA, com o objectivo de analisar a implementação dos centros de actividades ocupacionais para às pessoas com deficiência. A APEGADA realiza esta conferência com a participação da associação de deficientes mentais portuguesa (APPACDM), aproveitando a experiência desta última.

A congénere de Coimbra tem um modelo classificador dos centros ocupacionais que permite promover níveis de qualidade de vida dos deficientes mentais nas suas várias dimensões, uma prática que, segundo António Teixeira, já é realidade em países africanos como o Egipto, Nigéria e África do Sul. Das conclusões do encontro, será elaborado um relatório para ser partilhado com o Executivo, em particular com a ministra do Estado para Área Social, ministérios da Educação, Acção Social, Família e Promoção da Mulher, Saúde e Administração Pública, Trabalho e Segurança Social. “Nos países em que os princípios assentam na inclusão, os impostos recolhidos pelo Estado na segurança social beneficiam também aquelas pessoas que têm idade para trabalhar mas não podem porque nasceram diferentes de nós”, disse António Teixeira.

Cuidadores

Actualmente, trabalham no centro de apoio para autistas do Benfica, em Luanda, cerca de 16 pessoas, entre cozinheiras, vigilantes e terapeutas voluntários que a APEGADA diz serem insuficientes face ao número de crianças que acolhe. A associação espera também pelo cumprimento da promessa feita pelo Ministério da Saúde no dia 18 de Agosto de 2018, para a disponibilização de fisioterapeutas, neurologistas, psiquiatras, pediatras e psicólogos.

Sobre o autismo

O autismo é uma síndrome que se manifesta por alterações presentes desde idades muito precoces, antes dos três anos de idade, e que se caracteriza por desvios qualitativos na comunicação, interacção social e no uso da imaginação. O choro quase ininterrupto, uma inquietação constante ou uma apatia agravada também merecem atenção. A criança autista incomoda- se com o toque, com alguns sons e com certas texturas de alimentos, o que chega a dificultar demais a transição do leite para as comidas sólidas, já que o autista tem os sentidos afectados. A doença atinge mais meninos – quatro para cada menina. As causas ainda são desconhecidas, mas acredita-se que a sua origem esteja relacionada com anormalidades em alguma área do cérebro, embora não exista um estudo conclusivo nesta matéria. Segundo especialistas, o autismo não tem cura, mas o tratamento pode melhorar a condição de vida do autista. Referira-se que em Angola, o custo para o tratamento e acompanhamento de autistas nos centros privados ronda os 3 milhões de Kwanzas/ano.

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