Não há inocentes

Eu costumava imaginar como seriam os discursos políticos nos países que no início deste século foram dados como Estados inviáveis, como a Guiné Bissau, a Somália, a Serra Leoa e o Afeganistão. Nós somos agora tidos por algumas instâncias como um país sem futuro, começo a perceber um pouco daquilo para o qual procurava respostas. É como o Titanic, a banda continua a tocar. Os países que se encaminham para o fundo também têm as suas bandas, os seus palhaços, a sua plateia, os seus espertos que fogem com as joias e os quadros de arte e aqueles, como o antigo ministro da Informação de Saddam Hussein, que dizem estar tudo bem e serem vencedores quando, afi nal, o inimigo já está a estender a mão para os apanhar. Fazem e dizem tudo, só não olham para a realidade e não conseguem estabelecer alianças para a consertar e mudar o rumo das coisas. Por cá temos de tudo um pouco e temos também pessoas que reúnem todas estas características. Angola ainda não conseguiu cumprir qualquer dos objectivos de desenvolvimento sustentável. Um único que seja, nada. E como há anos que andamos mal colocados no índice de desenvolvimento humano, com a pobreza a crescer, a crescer, talvez fosse bom toda a gente mudar de discurso, de atitude e começar a pensar num país futuro, todos juntos. Agora anda-se ao ping-pong das acusações, cada um dos pecadores a querer mostrar-se menos pecador do que os outros, como se isso por si só o ilibasse dos pecados e revertesse o sofrimento de quem sofre em consequência de tais pecados. Na guerra civil espanhola havia quem dissesse que “nadie es inociente”. Sim, para uma criança malnutrida, para cada um sem educação, para cada mãe que perde um fi lho por doenças evitáveis, estes que têm os olhos marejados e acusadores, sem futuro, para estes, nadie es inocente.

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