deixar falar os cromossomas

Há cerca de duas semanas, Yuri Quixina, que ensina macroeconomia na universidade, disse à Rádio Mais e ao OPAÍS que Angola está a caminhar para uma situação em que dois jovens ainda se estão a paquerar mas os seus cromossomas já têm de pagar dívidas. É que depois vem a fase do namoro, eventualmente do casamento, a fecundação, a geração do ovo, do, embrião, o feto e, fi nalmente, o bebé. Mas não chega. Este bebé tem de crescer, começar a trabalhar e a contribuir para o pagamento da dívida do Estado.

Ou seja, se a paquera não correr bem e os gâmetas não se encontrarem, ainda assim o fi lho virtual de cada um deles (chamemos de fi lho cromossómico), tem uma dívida por pagar. A Moody’s, agência internacional de rating, disse ontem que a dívida pública de Angola, este ano, vai atingir os cento e quatro por cento do produto interno bruto. Yôyo. Para a nossa capacidade de produção interna, e porque o investimento estrangeiro não quer vir (é só ver os prolongamentos nos concursos para telefonia, refi nação, etc.) e porque algumas obras de infra-estrutura fundamentais vêm apenas douradas em discursos, está visto que a dívida pode acelerar mais do que o que acelerou nestes dois últimos anos, ou que teremos de apertar ainda mais o cinto para a pagar.

Quase tudo conspirou contra, desde o clima à produção petrolífera, que não cresceu o suficiente para aproveitar um preço até “jeitoso”. E depois ainda o kwanza, que despencou e com ele o emprego. É o seguinte, os “fi lhos cromossómicos”, virtuais, dos angolanos, têm de imaginar já formas de produzir e exportar coisas ou serviços, mas há o risco de os ditos cromossomas não valerem uma espingarda, em termos cognitivos, por causa da desnutrição. É hora de exercitar os neurónios e conversar muito para ver se se encontra uma saída efi caz. E rezar outra vez pelo petróleo.

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