“não vamos sair da pobreza monetária se não alterarmos o modelo económico”

“não vamos sair da pobreza monetária se não alterarmos o modelo económico”

A pobreza monetária aumentou 4% em todo o país, segundo dados do INE. No total, 41% da população angolana é monetariamente pobre. O que isso pressupõe? Primeiro devo saudar o INE por estar a fazer um trabalho extraordinário e penso ter chegado a hora de se lhe conferir maior autonomia, porque tem ajudado o governo e a sociedade, em geral. Os dados que divulga permitem-nos saber a nossa real situação social e os indicadores económicos.

O relatório sobre pobreza monetária demonstra o rendimento real da população e revela que cerca de metade da população angolana vive com 1,90 dólares por dia, abaixo de mil Kwanzas. Traduzido em números reais, cerca de 12 milhões de pessoas está nesta situação e vive maioritariamente em zonas rurais.

Em que medida os indicadores apresentados nesses relatórios terão impacto sobre as políticas públicas, uma vez serem lançados ‘fora de época’ – depois da elaboração do OGE?

Os relatórios podiam ser publicados em Dezembro ou em Janeiro, porque o governo tem dados, no meu entender, que lhe permitem ter essa perspectiva, visto que o INE tem relatórios-piloto. Assim sendo, penso não ter levado em consideração, a julgar pela forma como foi repartido o Orçamento/2020.

Entretanto, o índice de pobreza monetária aumentou devido a vários factores, entre os quais a depressão económica. Num país que vive uma depressão económica sem precedentes, a renda das famílias derrete. Esse derretimento tem a ver com o emprego, que está cada vez mais escasso e a maior parte das famílias depende do Estado e o Estado não tem dinheiro. E mais: um país que não produz aumenta a pobreza monetária.

Sabe o que é necessário para reduzir o índice de pobreza monetária?

Não.
Em que medida o aumento de 53,5% na proposta do OGE/2020, em relação ao anterior, mitigará a taxa de pobreza monetária e multidimensional? Emprego. É preciso um outro modelo económico que acarinhe os empresários e os jovens empreendedores que saem das universidades.

É fundamental alterar a fi losofi a de fazer economia, a lógica é essa. Mas o problema que se coloca é que os orçamentos são réplica dos anteriores, é só lembrar o caso de alguns projectos da província de Cabinda, já executados, tinham sido inseridos outra vez no Orçamento. Assim não se combate o índice de pobreza, porque o foco do nosso Orçamento continua a ser o petróleo e não o talento das famílias. Não vamos sair da pobreza monetária se não alterarmos o nosso modelo económico.

Você insiste na questão de ‘os orçamentos serem réplicas dos anteriores’. Não acredita que o caso dos 15 projectos seja lapso?

É lapso quando você faz o orçamento sozinho. É um lapso muito grave. Na Europa, ou nos Estados Unidos, isso daria produção musical e muita sátira, mas os nossos artistas não pensam muito nisso. A comédia em Angola não tem essa perspectiva. Seria muito interessante.

O FMI aprovou o pagamento de USD 247 milhões a Angola, no âmbito do programa de Financiamento Ampliado. É de dinheiro ‘fresco’ que a economia precisa para se reanimar, tal como defendem vários economistas?

Defendo que Angola precisa de muita mentalidade fresca, amor à produtividade e atitude para a economia sair da crise. Podemos ter muito dinheiro, mas se a mente não mudar vamos colocar a corda ao pescoço das gerações vindouras.

Que tipo de mudança de mentalidade você defende?

Do espirito estatal para empresarial, primeiro. As pessoas têm que sair do Estado e serem empreendedoras. E quando estão no trabalho devem ter amor ao trabalho. Se a nossa mentalidade não mudar, podemos ir buscar 60% da riqueza de Bill Gates e colocar em Angola, será como uma esponja, porque não amamos a produtividade. A nossa é economia é do sector público e não privado.

Entretanto, é normal que o FMI desbloqueie a segunda tranche, porque Angola está obrigada a honrar o compromisso aprovado no acordo. Mas isso não nos deve deixar felizes, por que é dívida. Temos dívidas por não gerirmos bem o nosso dinheiro e é um certifi cado de incompetência.