Se Jesus é Pula, Deus é Zuca

Escrevo enquanto espero Jesus chegar. É! Juro que é verdade. Ele vai chegar às 4. E eu estou na lista dos convidados. Desta vez eu vou pro céu! Sentado numa secretária consular do Rio de Janeiro, no palácio de São Clemente, provavelmente a casa mais bonita do bairro carioca de Botafogo, sinto a ambiente se adensar. Agradeço ao Jaime Leitão, cônsul geral de Portugal. É bom poder ver Jesus chegar. Olho em volta e sinto. Os espíritos se agitam. As almas tremem.

As vozes conspiram nos corredores. Cochichos e perguntas surgem de todo o lugar como aparições. Os comuns mortais aspiram ao encontro. É Jesus chegando. Chega às 4. É a hora da redenção. Ficar esperando Jesus no Rio, mesmo que para o lançamento de um livro que ele nem escreveu — mas abençoou — é uma coisa estranha. Um exercício espiritual tão metafísico como quântico. Tão inesperado quanto anunciado. Tão louco quanto bárbaro. Tão simples quanto samba.

Tão desejado como profeta. Tão impossível quanto pródigo. Tão simples como inatingível. Questão de fé. Há coisas que só existem no futebol! O futebol é como o amor, onde o melhor e o pior estão sempre no mesmo lugar e são a mesma coisa. Por isso o futebol é um espelho tão real da vida. Às vezes ainda mais real que ela. O futebol, juntamente com a língua portuguesa, são a cola principal da grande nação brasileira. São o que une o que normalmente se desune. São o cimento do concreto.

O canal mais rápido entre as pessoas. Alfa e ómega de uma nação extraordinária. Alguém sabe mesmo o que seria do Brasil sem o futebol como válvula de escape social? Não tem Lula que chegue nos calcanhares de um penalti cobrado para o lado certo.

Não tem João tão lindo como um remate do Mantorras. Não tem chance que o Gilmar ou o Toffoli pudessem atrapalhar um julgamento do Zico. Nem um Carlos, Eduardo, Flávio, Olavo, Dilma, Temer, Lava Jato ou Impeachment, que cheguem nos calcanhares do doutor Sócrates. Tem o Mané e o Pelé. O Garrincha e o Nascimento. O Felipão. A CêBêéFe. A canarinha. A bola girando no gramado. A emoção do povo. O gol. Goooolooo! Gooloooooo! É Milagre!

O futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais que isso. O futebol faz o povo acreditar que o redentor vai chegar no Rio, hoje às 4, quando ele já está lá, de braços abertos, desde 12 de outubro de 1931. Só falta mesmo alguém dizer que Jesus é português; e que o Flamengo vai ganhar a Libertadores e o Brasileirão tudo no mesmo dia… Aí, Deus vira brasileiro.

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