Resgatar o orgulho pelo RAP

Resgatar o orgulho pelo RAP

Músico e compositor africano e português, Jay Moreira considera-se um artista ao serviço do RAP (Ritmo, Arte e Poesia), mas também ao serviço da palavra dita de forma equilibrada

Por:Sílvia Milonga, em Lisboa, Portugal*

Com seis CDs editados, Jay saltou para a ribalta, sobretudo em Cabo Verde, onde, em três anos se tornou o centro das atenções e acredita que foi especial, “era o Michael Jackson de Cabo Verde e não tenho problemas em dizer que lá vivi emoções fortes, fui muito acarinhado, houve estórias de pessoas que choravam ao ouvir a minha música. Houve um caso de um compatriota que voltou dos Estados Unidos da América para Cabo Verde por causa de uma música minha que ouviu, conforme me contou”, ressalta. Mas Jay não se quer aproveitar desse sucesso, “sinto que tenho potencialidade para me mostrar ao mundo e ajudar o meu país”. Nasceu em Cabo Verde e aos 4 anos foi para Portugal, pelo que, a brincar acusámos:

“Já tens cabeça de português, ao que ele respondeu rindo. Sim- tenho cabeça e o cuidado do português, tomar cuidado é importante…,mas tenho orgulho de ser cabo-verdiano e sinto que o português precisa de mentes diferentes e quero ser uma dessas mentes, creio que posso ser um meio de ajudar os outros a estarem tranquilos em relação à sua cidadania e origem”. A sua banda de artistas noruegueses à qual chamaram “Sempre Bandidos” derivou de um encontro entre músicos de várias latitudes como, Cabo Verde, Austrália, Noruega e Irão. Na Noruega, onde morou oito anos, teve a oportunidade de viver uma verdadeira troca de sensibilidades culturais, através da sua música inspirada essencialmente no Hip Hop e na música afro-americana.

Destaca que o facto de ter começado no RAP, que junta vários estilos, faz com que não tenha complexos em relação a quaisquer músicas do mundo. Conheceu e entendeu-se bem com o angolano Matias Damásio em Cabo Verde e cruzou-se com artistas africanos nos anos em que viveu na Noruega, onde participava como artista convidado em eventos, alguns promovidos por instituições do estado norueguês. Ainda sobre influências musicais diz, “Gosto das músicas das Antilhas mais tradicionais, em que nem sempre entendo as letras, mas sinto que a voz é tão natural, que quando chora a própria voz vai dizendo sentimentos. Sinto que a minha voz se encaixa nesses ritmos e se tiver oportunidade mais tarde talvez me desenvolva nesse estilo com a minha voz.

Por enquanto quer estar em palcos e resgatar o respeito que foi perdendo o estilo RAP, que é um género que nós africanos iniciamos aqui na Europa, prefiro ter a missão de continuar”. Jay faz as suas próprias melodias e letras e explica como se desenrola o processo criativo, “A sensação que tenho é de que a música já me stá dizer alguma coisa e o meu intuito vai tentar ouvir o que é que o ritmo está a dizer e o próprio tema vêm através da música também. Sinto que a melodia me está querer dizer alguma coisa, às vezes em português, em crioulo e um pouco também em inglês. O ritmo vai falando e vou tentando entrar sem sair do contexto da batida. Quando tenho uma história concluída sei que a música está pronta”.

Como o RAP deixou de ser apenas orgulho Jay considera o RAP ganhou respeito por denunciar injustiças sociais, mas depois foi usado para divulgar a bazofaria e o lado não certo das coisas, “Usou-se o corpo feminino, o álcool e a droga para promover o rap”, frisa acrescentando, “o rap foi o princípio de dizer que nós os menos favorecidos, existimos e também somos pensadores e fazemos falta para construção de uma sociedade mais rica, atenção, não nos ignorem, não nos esqueçam, mas depois vieram os exageros faltou pensar: calma, agora a humildade também é preciso”. “

Quando começámos a fazer RAP em Portugal, procurámos bastante uma editora, porque estávamos a trabalhar para sermos bons e as rádios e editoras ignoraram- nos. Mas, depois de muita insistência, houve um ou dois portugueses que conseguiram entrar no circuito e passar nas rádios, televisões etc. Nós os africanos começamos a ficar excluídos e a criar a nossa própria forma de estar”. O artista contínua “Uma editora espalha as músicas e estas ganham direitos, quando não és editora, mas tens dinheiro acabas por arranjar formas diferentes de receber dinheiro de volta, o dinheiro não vinha das editoras mas de outros lados, e isso prejudicou o rap, afirma dando o seu ponto de vista, “o RAP tornou-se uma espécie de álcool, é preciso que haja bêbados para consumir, mas penso que temos mentes fortes para dar a volta a isso”.