Parte da América é Angola

Parte da América é Angola

O ministro das Relações Exteriores, Manuel Domingos Augusto, participou nesta Segunda-feira na cerimónia de homenagem a 20 escravos negros de origem angolana que chegaram à Baia de Chesapeake, em Jamestown, Virgínia, Estados Unidos, em 1619. E isto é muito importante. Há onze anos, na sua primeira edição, este jornal, OPAÍS, trouxe como manchete uma matéria sobre os “Angolanos na Fundação da América”, assinada por José Ferreira Fernandes, de lá para cá, ouviu-se falar sobre o assunto outra vez, com destaque, num pronunciamento da então ministra da Cultura Carolina Cerqueira, preocupada em recuperar as ligações de sangue com as Américas. Agora, ao que parece, o Governo de João Lourenço toma o assunto a peito. E faz muito bem. É uma forma de recuperar a Rota dos Escravos de que pode falar rosa Cruz e Silva e outros académicos. Olhemos para os judeus, a sua pátria é Israel, onde quer que estejam. Mas há outros exemplos fora das religiões, os cabo-verdianos são de Cabo-Verde e da nação crioula mesmo nascendo fora do arquipélago e estando já na terceira geração. O país ganha com isso? Muito, torna-se muito maior. Angola desperdiçou ao longo de séculos a ligação com os seus fi lhos na diáspora e desperdiça ainda um capital imenso. É preciso recuperar tempo e fazer com que milhares, senão milhões de americanos, tenham em Angola a sua pátria original. E há sinais de que eles procuram por “nós”, vejase como tratam a rainha Njinga, como “vasculham” a nossa música, como ainda preservam ritos, culinária e nomes. Que se mande historiadores e homens de cultura angolanos ao Harlem ou a Wall Street, pesquisar e falar sobre Angola. Nova Iorque tem sangue angolano na sua criação, explicar tudo isso e recuperar as ligações emocionais é uma dívida que o país tem para com a sua diáspora, que não partiu porque quis, mas que precisa de se rever também nesta nacionalidade independente e promissora.