“Salazar nunca pôs um pé em África e isso foi de uma grande cobardia”

Os portugueses que viveram em Angola conhecem bem o significado da palavra Tundavala, uma fenda na natureza com 1200 metros de profundidade. É essa queda no íntimo de várias personagens que Paula Lobato de Faria quis no seu segundo romance.

Os escritores que se estreiam têm sempre de vencer a barreira do livro que se segue. A autora Paula Lobato de Faria escapou ao habitual bloqueio nos novos autores ao optar por uma saga que pretende acompanhar várias gerações ao longo do século XX português. Intitulado Tundavala, estas Memórias de Um Tempo de Guerra e Segredos segue-se a Imaculada, que era o Retrato de Uma Família Portuguesa, e continua algumas das histórias passadas na década de 1950 agora num novo cenário, o ano de 1966 caracterizado pela eternização do salazarismo e da censura, do exílio e da guerra colonial.

O que torna Tundavala diferente de romances já publicados é que coloca no cenário do exílio e da guerra colonial protagonistas mulheres em vez de as remeter para o pano de fundo da narrativa. Tanto no caso do conflito militar como na situação do exílio, são mulheres as personagens fundamentais para se compreender o que se passa, sendo certo que as personagens homens tomam em grande parte o papel que está habitualmente reservado às mulheres neste género de literatura.

A escolha de uma única palavra para título nos dois romances que até agora publicou não surge por acaso, mas porque resume o que é o livro: “Tundavala aparece porque procurava um sítio místico em África e como uma das personagens perde os pais lá, fica a olhar para o abismo. São cenas cruciais do livro e para mim torna-se uma metáfora perfeita para as personagens desta saga. Estão todas à beira do abismo por uma ou outra razão. Além de uma alegoria às personagens, quero que nos lembre a nossa pequenez.”

A experiência pessoal da autora estará em muito ligada ao registo que usa neste romance, pois Paula Lobato de Faria perdeu um filho há poucos anos e só começou a escrever depois dessa tragédia: “Foram os livros que me salvaram, precisava de ler e de escrever freneticamente para aguentar o sofrimento.”

O anterior regime é amplamente caracterizado nas suas formas de repressão e impedimento de modernização do país e das mentalidades. Logo à página 19 surge um resumo de várias críticas: a atitude da PIDE, a “fantochada” das eleições, a eternidade do ditador e a política colonial. Há um diálogo que se destaca: “Os ventos sopram contra Salazar. Ironicamente, nunca pôs um pé em África, mas não quer de lá sair.”

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