Água, a nossa maior vergonha

Água, a nossa maior vergonha

Digam-nos só, de uma vez por todas, o que se passa com a água em Angola. Imaginem os angolanos que no Dubai, para onde viaja muita gente, não falta água. Estamos a falar de um país do deserto. Assim como em Marrocos ou Cabo Verde, ou mesmo na Namíbia, países com muito poucos recursos hídricos. Quase não têm água doce natural, mas nas torneiras das suas casas corre água com normalidade.

O que se passa, afinal, em Angola, para sermos tão diferentes? Incompetência? insensibilidade? gatunice? feitiço? Alguma explicação tem de haver. Não é normal que uma pequena cidade como a Gabela, por exemplo, não tenha água nas torneiras apesar de banhada por dois rios. Que digam que Luanda é uma grande confusão, que há garimpo, que arranjem as desculpas que quiserem, mas e as vilas que na época colonial tinham água nas torneiras e agora até nem cresceram assim tanto, antes pelo contrário, em algumas a guerra destruiu dezenas ou centenas de casas, porquê que até nestes locais não se consegue fornecer água?

Porquê que temos angolanos com trinta e tal anos, ou quarenta, e toda a sua vida foi a ir buscar água ao rio, ao poço à uma cisterna qualquer? Porquê que se lhes mostra que os seus fi lhos terão de passar por isso também a vida toda? Aliás, são agora os carregadores de água para casa. Pode-se falar de futuro num país assim?

O futuro constrói-se sobre sonhos e sobre bases mínimas, não a sub-humanizar as pessoas. Ver adolescentes com recipientes de água à cabeça, algumas vezes a atravessar ruas movimentadas, mesmo em Luanda… por favor, paremos, refl itamos se queremos, se merecemos mesmo ser um país. Há que ter um pouco de vergonha.