Yuri Quixina: “tecnicamente o país não tem lógica de imprimir moeda”

Yuri Quixina: “tecnicamente o país não tem lógica de imprimir moeda”

O OGE/2020 está defi nitivamente aprovado e vai atender a dívida pública (60%), salários (30%) e investimentos (10%). Que economia teremos no próximo ano, com este quadro?

Vamos ter uma economia de muita imprevisibilidade, e no momento de incertezas o pessimismo controla as emoções. É um orçamento virado à divida, aos impostos e não à produtividade. O Estado continua uma baleia concebida, – é muito grande e ainda não deu à luz. Esquecemos de cortar nas despesas, apesar de sabermos que um dos mandatos que o presidente da República recebeu, durante a campanha eleitoral, era para privatizar e reduzir o tamanho do Estado. E nada disso aconteceu.

E o aumento da verba em 53,5% não ajuda a atenuar a pobreza?

Para atenuar a pobreza tem de haver emprego, um ciclo de produtividade e crescimento económico. A economia tem de dar o ar da sua graça para os empreendedores com ideias de negócio prosperem nos seus negócios. Se isso não acontecer, não se cria riqueza.

E que reflexos estes números terão sobre a economia: inflação (25%), crescimento do PiB (1,8%) preço do petróleo (USd55)? Vamos por partes. Taxa de crescimento de 1,8% vai sair aonde?

Perspectiva-se um crescimento do sector petrolífero para 1,5%. No ano passado decrescemos 5% e a perspectiva de aumento da produção é de queda e não passamos de 1,4.

O argumento é a licitação de novos blocos, mas os resultados de exploração não se alcançam em um ano.

Inflação?

A inflação pode ficar muito acima de 25%, na medida em que haverá uma enorme desvalorização e contracção de oferta de bens e serviços. Essa previsão é muito optimista, poderemos ter uma inflação acima de 30%, porque a desvalorização e impressão da moeda numa economia sem produtividade piora os preços. Por isso, defendo que quem cria a inflação é o Governo e não o mercado. No mercado livre não existe inflação, mas preços localizados.

Preço do barril do petróleo a 55 dólares. É conservador?

Não está muito distante dos actuais 64 dólares. Pela característica do mercado não considero conservador. Considero optimista e dá sinais de que a economia continua dependente do petróleo. Na minha perspectiva, o preço rondaria entre 40 e 45 dólares.

O que é possível fazer com cerca de 10% no sector económico?

O sector económico depende da maneira como estamos a aplicar a nossa agenda de reforma. Nas economias as reformas promovem espaço para o sector privado, mas as políticas em curso desincentivam os empreendedores, na medida em que os agentes que influenciam as medidas andam atrás dos empresários: A AGT e a Polícia das Actividades Económicas. Os negócios de pouco risco não deviam carecer de alvarás para exercerem a actividade económica.

A Moody’s perspectiva um aumento da dívida para 104% este ano. Que implicações isso terá sobre o serviço da dívida? A Moody´s lançou um recente relatório de análise da economia angolana, onde afirma que o perfi l da dívida de Angola é péssimo, na medida em que continua na classificação de lixo.

O argumento da Moody´s consiste no facto de a combinação do preço do petróleo, a reduzida produção e a forte depreciação da moeda nacional podem ser os elementos cruciais, para que a dívida atinja 104%. É
provável que aconteça, porque Angola é um país que está a endividar-se e não está a crescer.

Como os investidores geralmente reagem ao facto de uma economia estar classificada em B3?

Com essa classifi cação, a Moody´s não recomenda investidores a investirem ou a comprarem títulos da dívida soberana de Angola.

Toda a dívida pública é perversa?

O político quando faz dívida é para sinalizar boa governação, através de construção de infraestruturas vistosas que as futuras gerações não poderão usufruir. Os estádios de futebol, as estradas mal feitas são exemplo disso. Foi um político que fez. A dívida pública de uma geração pode atrasar o desenvolvimento de várias gerações. Não se pode aconselhar a um Presidente da República, como primeira estratégia, o endividamento. O melhor caminho seria, primeiro, inventariar a dívida e explorar o talento do povo para a produção interna.

Em 2020, o país terá uma nova série do kwanza. O dossier está na posse dos deputados para a aprovação, com o argumento da segurança. É pertinente? Essa é a razão que os bancos centrais geralmente apresentam para imprimir moeda. Quando o Governo imprime moeda tem impacto no Orçamento, porque o orçamento pode ser financiado com a impressão de moeda.

E isso pode causar inflação, porque o país não tem produção interna. Tecnicamente, Angola não tem lógica de imprimir moeda.

Quais são os riscos?

Imprimir dinheiro implica ter divisas e as poucas que o país tem serviria para financiar a reforma estrutural. Fazer dinheiro tem custo.