Especial: Macau é multi-cultural e laticulturalidade

Especial: Macau é multi-cultural e laticulturalidade

Guangzhou é a cidade capital da Província Cantão, uma das maiores economias da China. A cidade por si só tem 15 milhões de pessoas, enquanto Macau só tem 670 mil. Eu não faria uma comparação entre as duas cidades. Há portugueses, angolanos que gostam mais de Guangzhou e os que gostam mais de Macau. É natural. Mas lembre que no último planeamento do Governo Chinês para aquela região, Macau foi eleita uma das quatro cidades pilares junto com Guangzhou, Hong Kong e Shenzhen, isso mostra a importância das duas cidades. Cada cidade está a seguir, e segue bem, o seu próprio caminho de desenvolvimento. Vamos torcer por um melhor futuro para ambas.

Em que é que Macau é diferente do resto da China e em que é semelhante?

A diferênça está, claramente, na sua única cultura internacional, uma mistura da chinesa, portuguesa, e até com um pouco da africana. Esta diferênça concedeu a Macau uma vantagem natural para se tornar uma ponte entre a China e os países de língua portuguesa. Mas Macau sempre foi território chinês e seus habitantes são na sua maioria chineses. A cultura de trabalho, valor da família, tradição de patriotismo e optimismo pelo futuro são iguais como no resto da China.

Houve angolanos em Macau na era colonial, alguns em serviço militar, esta presença é ainda sentida e valorizada?

Como eu disse, a cultura internacional de Macau tem também uma componente africana. Em Macau há sempre pontos de encontro para pessoas de diferentes culturas, idiomas e tradições. Qualquer pessoa que tenha contribuido positivamente para o desenvolvimento de Macau será sempre guardada na memória desta cidade.

Além da ponte que é a língua, que mais Macau pode ofercer a Angola na sua relação com a China?

O papel de ponte que Macau desempenha não se limita só à língua, mas também aos seus sistemas jurídicos e fi nanceiros, no ambiente de negócios, que tiveram as mesmas origens que as de Angola e outros países de língua portuguesa. Isso torna o négocio e o investimento mais fácil se for feito em Macau ou através de Macau. Só para usar um exemplo, no ano passado visitou Angola uma importante delegação da autoridade monetária e fi nanceira de Macau para abordar cooperações neste domínio e foi bem recebida pelo governo e empresariado angolano. A cooperação monetária e fi nanceira é muito importante para a elevação do nível de cooperação China-Angola, e tem um futuro bem promissor. Penso que já há instituições fi nanceiras angolanas a funcionar em Macau.

Há o risco de a situação em Hong Kong influenciar a de Macau?

Eu não vejo esta possibilidade. O que está acontece em Hong Kong é uma pequena parte da população insatisfeita com a sua condição económico-social e incentivada por forças estrangeiras, que optou por um caminho violento e até criminoso de desabafar. Mas nota-se que Hong Kong é uma sociedade regida pela lei. Pode levar tempo para acalmar a situação, mas temos confi ança em que o governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong, com o apoio do governo central da China, conseguirá resolver o problema e devolver a paz e estabilidade para os seus cidadões.

O governo da Região Administrativa Especial de Macau conseguiu, ao longo dos 20 anos, manter um forte crescimento económico, trazendo benefício universal para a sua população e, por isso, tem tido um amplo apoio do povo. Qualquer pessoa que vá para Macau consegue constatar esta realidade. Em que ponto estão as relações económicas entre a China e Angola? Continua em boa fase. O comércio bilateral manteve-se num alto nível com tendência de diversificação na pauta de exportação de ambos os lados. Angola participou nas duas edições da Feira de Importação da China e teve bons resultados.

Eu estive a ver no Jornal de Angola e na TPA, há uns dias, que o exportador angolano supreendido pelo apetite dos compradores chineses, gritando perante os jornalista da TPA que está a vender mel por contentores inteiros. Em termos de investimento também estamos num bom momento. Dados da AIPEX mostram que a China continua a liderar os investidores estrangeiros em Angola desde 2018. E este investimento é para o sector produtivo, uma das mais defendidas pelo governo angolano. É política nacional da China apoiar o desenvolvimento dos países africanos incluindo Angola com princípio de benefício mútuo.

É visível a redução da presença empresárial chinesa em Angola, acha que é recuperável?

O que alegam os empresários que se vão embora? Angola tem sido uma má experiência?
Eu pessoalmente não concordo com a palavra ‘redução da presença’. É verdade que há empresários chineses a sair do mercado angolano por causa da mudança da conjuntura e o seu ramo de negócio não é adaptável para a nova realidade. Assim funciona a economia de mercado, não se guardam memórias negativas. Mas há outros a entrar, atraidos pela potencialidade do mercado angolano e as medidas de reforma do seu governo.

Ultimamente, tenho feito alguns visitas de campo e fui supreendido pelo número de novas inciativas empresariais e a sua diversidade de ramo. Alguns envolvem grandes investimentos, como a Zona Industrial Sino Odd no Bengo, agora muito falado pela imprensa angolana. Mas o crescimento do novos negócios leva tempo e precisa de apoio das autoridades angolanas. Vamos dar tempo ao tempo e torcer para que as coisas saiam bem.

Em que é que sente que a cooperação entre os dois países não está a ser bem aproveitada? Não seria justo dizer que a cooperação entre os dois países não está a ser bem aproveitada. Os benefícios da cooperação ChinaAngola está em todos os lugares

Ao longo dos anos isso resultou na recuperação ou construção de 20 mil quilómetros de estradas, 2 mil Kms de ferrovias, inúmeros construções habitacionais, hospitalares e escolares em Angola. Eram projectos de infra-estrutura que Angola mais precisava logo depois do fim de conflito interno. Muitos outros países admiravam por esta grandiosa cooperação. Mas o modelo de cooperação tem que mudar, ou seja, evoluir para se adaptar à nova conjuntura. O que era boa no passado pode não ser tão boa agora. Mas fico feliz em ver que esta adaptação já está a acontecer.

Os angolanos que se formam na China, no seu regresso mantêm contacto com a China através da Embaixada, por exemplo, são absorvidos pela empresas chinesas, por empresas angolanas?

Se juntarmos as bolsas oferecidas pelo governo chinês e as pelas empresas chinesas, temos todos os anos mais de 200 alunos angolanos a estudar na China. O governo angolano, através do INAGBE, administra as bolsas oferecidas pelo governos chinês, e escolhe os melhores candidatos para estudar na China.

Quando voltarem da China, eles teoricamente teriam empregos garantidos, porque aprenderam lá conhecimentos mais necessários cá em Angola. Mas a realidade não tem sido tão satisfatória, talvez por causa da conjuntura económica.

A Embaixada tem contacto de alguns destes estudantes e os tem ajudado a se adaptar melhor ao mercado de trabalho angolano, incluindo com empregos nas empresas chinesas que actuam cá. Do outro lado, os estudantes enviados pela empresas chinesas sempre voltam com emprego garantido, até porque isso faz parte do contrado da bolsa. Mas em geral, esta cooperação em formação de talentos tem sido muito útil para Angola e vamos continuar a fazê-lo.

O novo Aeroporto Internacional de Luanda, ao que se sabe, está parado, a China já empregou nele muito dinheiro, o que diz a empresa? Julga que o projecto vai ser concluido com empresas chinesas?

Vamos esclarecer que o novo Aeroporto Internacional de Luanda é uma obra angolana. É claro que nenhum empreiteiro, nem financiador, seja chinês ou não, gosta de ver a obra parada. Penso que o governo angolano, como dono da obra, também não gosta. Vamos ver se as partes conseguem contornar as dificuldades e terminar esta obra que é de grande benefício para o povo angolano.