Que cure, ao menos

Que cure, ao menos

Quando era criança havia aquela… vou lhe chamar de máxima, para enfrentar a pica (não pensem com cérebros narcóticos, era a pica mesmo, de injecção) que dizia: “dói, mas cura”. Espero que no caso de Angola a injecção seja bem doseada e com o medicamento certo, que cure e não mate ou deixe sequelas para sempre. Refi ro-me a este processo de combate à corrupção que começa, de facto, a doer.

Dói porque chega a gente “grande” e talvez a conjuntura vá exigir que não se fique por aqui, é como abrir uma porta em pleno vendaval, há que ter forças nos braços para a fechar. Não estou a dizer que deve terminar a luta contra a corrupção, livra! Apenas que os julgamentos estão a remexer coisas cujas dores vamos levar tempo a esquecer. Se calhar tinha de ser assim mesmo, para os implicados, mas o Estado deveria ser protegido de outra forma.

Alguém vai pensar que estou a apelar para julgamentos à porta-fechada, nada disso, o vendaval está no auge, não se pode mais fechar a porta, seria um golpe contra a democracia e contra os propósitos e a imagem do “projecto”. Seria o descrédito. Mas, se Augusto Tomás, preferiu confiar nos seus créditos de “bom gestor” e de bom militante como defesa, os novos julgamentos já nos revelaram o nome as nacionalidades de um espião, nomes de oficiais dos serviços de segurança, truques de procedimentos, etc.

E também as falhas. Agora, no julgamento do caso 500 milhões de dólares, ficamos a saber que a operação era sigilosa, que o actual Presidente foi posto ao corrente, assim como alguns dos seus colaboradores mais próximos. Ficamos a saber das falhas no BNA motivadas pelo dito sigilo e fi camos a saber, sobretudo, que os de “lá de cima” se “comem vivos” e que a lealdade, honestidade e outras prendas de bons meninos de nada valem. O que conta é o poder ou a sua proximidade. Só que não estamos sós neste planeta… Isto pode doer e não curar.