2019: O ano em que o mundo da beleza é dominado por cinco mulheres negras

2019: O ano em que o mundo da beleza é dominado por cinco mulheres negras

É cada vez mais notório o nível de exigência intelectual, cultural e em termos de singularidade, quando se procura e nomeia aquela que representará a beleza feminina por um ano de mandato, pelo mundo. Os concursos internacionais já não buscam simplesmente pela mais aprazível aos olhos, a premiada tem de ter igual inclinação para apelar ao cérebro e coração. Zozibini, Toni-Ann, Nia, Cheslie e Kaliegh são o pacote completo.

Essas cinco jovens negras, eleitas aos 26 anos de idade, 23, 25, 28 e 18, respectivamente, são de nacionalidades sul-africana, jamaicana, e as demais três são norte-americanas, detentoras dos três tronos no seu país. Juntas no pódio mundial da beleza, fizeram história porque, pela primeira vez, desde que foram estreadas todas as competições internacionais de beleza, os cinco tronos mais ambicionados são ocupados por mulheres negras, em simultâneo.

Leila Lopes, a nossa eterna Miss Universo, em entrevista exclusiva para o jornal O PAÍS, enunciou: “é uma grande honra ter a oportunidade de falar e dar voz a um assunto tão delicado e importante.” Porque, “ser uma mulher negra em posição de liderança, seja ela qual for, é carregar história de luta, sofrimento de um povo, nas costas. Defendo a importância da equidade de género e raça no mundo”.

Zozi Tunzi, a jóia sul-africana mais linda do universo

Hadajlmar El Vaim, produtor de moda, acha que, a vitória de Zozibini Tunzi, intitulada a mais linda do universo, a 9 de Dezembro de 2019, reafirma que “África está na moda”, no melhor sentido possível!

Esse pódio de 5 rainhas negras, comprova que a beleza não vê cores. E, “a Miss sul-africana não era a única que saltava à vista, a diferença (marcou-se pelo) facto de ela ser única!!!” Confiante no futuro, acha que muitas mais pessoas negras serão reconhecidas mundialmente dado que, “é um sonho que renasce”, auspiciou Hadjalmar El Vaim.

Sharam Diniz, modelo luso-angolana, actriz, de 28 anos, residente em Nova Iorque, nos Estados Unidos da América, elegida anjo, 2 vezes, no desfile anual da Victoria’s Secret, está orgulhosa deste top 5 de negras poderosas. Confessou a O PAÍS que, o “discurso incrível, verdadeiro, da Miss Universo, fez com que milhares de nós nos identificássemos. Agora, há maior esperança alimentada, trabalhada diariamente, em diferentes áreas, desde o entretenimento à política.”

“Acredito que uma grande maioria de nós, em algum momento da vida, sofreu a consequência de não pertencer ao padrão mais comum, imposto pelas gerações passadas, desde campanhas publicitárias em televisão, revistas, entre outros,” alegou. Logo, “a própria indústria da moda tem contribuído para desmistificar esse preconceito, daí vermos modelos negras hoje a usarem, orgulhosamente, as suas carapinhas, afros ou até mesmo carecas”, argumentou a modelo internacional bem-sucedida, Sharam Diniz.

Ter “mulheres influentes no mundo que possam mostrar, assumir e fazer com que as nossas raízes e culturas sejam aceites, é uma vitória para todo o continente africano e a salvação de gerações posteriores”, arguiu. E, “só estando bem connosco conseguimos fazer bem aos outros. A forma como nos apresentamos reflecte o que somos, o que sentimos e o que queremos,” portanto, “todo tipo de beleza deve ser aceite”, apelou.

Quantas mulheres negras já foram eleitas a mais bela?!

A primeira de todas as cinco que até 2019 alcançaram esse título universal, foi Janelle Penny Commissiong, nascida em Trinidad & Tobago, foi eleita Miss Universo 1977 e venceu também a categoria de fotogenia. Hoje, com 66 anos, ainda é um ícone da beleza mundial. Seguiram-se-lhe quatro divas negras, intercaladas por décadas, sendo a segunda Wendy Fitzwilliam, sua conterrânea, de Trinidad & Tobago, Miss Universo 1998.

Mpule Kwelagobe, do Botswana, venceu o concurso internacional um ano depois, coroada Miss Universo em 1999, ficando registada na história como a primeira africana negra a vencer a competição de beleza mais disputada no globo.

Em 2011, uma vitória que ainda hoje faz eco, a angolana Leila Lopes mereceu a auréola de diamantes, exibindo beleza interior, exterior, inteligência e poder feminino, pelo mundo fora, no papel de Miss Universo 2011.

Agora, é a vez de Zozibini Tunzi, Miss Universo 2019. A sul-africana ganhou a coroa para o seu país, a terceira vez que a África-do-Sul vence, todavia, ambas as antecessoras de Zozi Tunzi são caucasianas.

Assim, para a Fashion Designer angolana mais internacionalizada, Nadir Tati, com carreira além-fronteiras enquanto modelo, este quíntuplo “é o começo de uma nova era. São objectivos que já vêm a ser traçados há alguns anos…”

O reconhecimento do mundo, perante o universo, que a mulher negra fiel às raízes basta, é tão bela que supera os estereótipos criados à volta de si, é relevante, simboliza “a emancipação da mulher africana”. Isto era necessário para “podermos competir ao mesmo nível,” que as demais mulheres, independentemente do tom de pele, textura do cabelo, cultura, importa a identidade, atitude, inteligência, ser uma mulher forte e, Zozibini tem isso.

O concurso Miss Universo, inaugurado em 1952, em Nova Iorque, soma mais de seis décadas ininterruptas de sessões de premiação, precisamente 68 edições. Apesar da longevidade, somente 5 mulheres negras, representando 7,35%, foram eleitas vencedoras.

Histórico de africanas no pódio do Miss Universo e Mundo

Comecemos por quem é mais próximo. Leila Lopes, de 33 anos, Miss Universo 2011, actriz e empresária, é uma talentosa e deslumbrante mulher angolana, natural da província de Benguela, que estudou em Inglaterra, onde reside. A seu ver, “é de extrema valia lembrarmos que, as dificuldades, o racismo, o preconceito, a resistência, são assuntos ainda fortes na mente e ideias de diversos povos e pessoas”, logo, o trabalho não pára.

“Não podemos, mesmo com conquistas fantásticas como as deste ano, deixar de prestar atenção ao que acontece à nossa volta. Pois, a mulher negra ainda é, em algumas sociedades e países, solitária”, reflectiu Leila Lopes.

“Portanto, o facto de cinco mulheres negras terem vencido os cinco maiores concursos de beleza deste ano, representa uma mudança positiva nesse sentimento de solidão”, salientou a Miss Universo 2011. Cada vitória nessa direcção é imensurável. “A crença social histórica, que viu a mulher negra escrava tornar-se empregada doméstica e ocupar cargos subalternos, hoje as vê como símbolos de beleza e notoriedade nacional e internacional.”

Assim, “como mãe, esposa, acredito, com muito respeito a quem represento, que a mulher negra, com força de resistência unida ao género, é capaz de transformar o mundo em níveis sociais, educacionais e económicos”, afirmou.

No Miss Universo, África recebeu a coroa 6 vezes. Três transportadas mais a Sul, para a África-do-Sul, em 1978, 2017 e 2019 e, Angola em 2011, Namíbia em 1992 e Botswana em 1999.

Já o concurso Miss Mundo, estreado um ano antes, 1951, três anos depois, trouxe o troféu até África na cabeça da Miss Egipto, coroada como a mais linda do mundo em 1954. A Nigéria foi o destino da coroa de diamantes em 2001 e, a África-do-Sul consagrou-se vitoriosa em termos de beleza feminina mundial nos anos de 1958, 1974 e 2014.

Ansiosa por trazer o troféu para África, berço da humanidade, está Zozibini Tunzi. Na madrugada de 9 de Dezembro, tomou a coroa de Miss Universo e, diga-se de passagem, serviu-lhe “como o sapato à Cinderela”.