Famílias SA

Famílias SA

Por:Dani Costa 

O nome de Sanna Marin ecoou nas últimas três semanas em todo o mundo. Aos 34 anos de idade, a jovem tornou-se na mais nova primeira-ministra da Finlândia, um dos mais prósperos países europeus, ocupando o 12º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). O facto de Sanna Marin ser uma ilustre desconhecida para muitos, embora tivesse ocupado a pasta dos Transportes do seu país, fez com que merecesse elogios pouco abonatórios do ministro esloveno da Administração Interna, Mart Helme, 70 anos, classifi cando-a como uma simples ‘vendedeira de loja’. Rebatendo o esloveno, a nóvel primeira-ministra gabou-se de que no seu país ‘uma criança de uma família pobre pode ir à escola, tornar-se primeira-ministra e alcançar muitos objectivos na sua vida’. E rematou: ‘a vendedeira de loja foi eleita primeira- ministra’. Decerto, para muitos políticos, sobretudo os da velha geração, a chegada de uma vendedeira ao poder pode ser tudo menos aceitável. O mais comum é ver ingressar nos lugares cimeiros da política os integrantes das conhecidas famílias políticas tradicionais. Pelo mundo fora existem várias, sendo uma das mais tradicionais as famílias Kennedy, os Bush (Estados Unidos), os Sarney, Neves, Magalhães, Gomes (Brasil), Ghandi (Índia) e tantos outros. A África tem as suas. E Angola, desde a luta anti-colonial aos tempos modernos também viu nascer as suas supostas famílias tradicionais, com umas mais higienizadas que outras, mas a continuidade da defesa dos projectos e sonhos daqueles que terão sido os seus fundadores andam ameaçadas. As famílias tornaram-se autênticas Sociedades Anónimas (SA), onde o que mais rende é saber a quantas andam os negócios. A política enquanto uma missão nobre, que visa satisfazer as necessidades colectivas, há muito que deixou de ser a fonte de inspiração para muitos dos herdeiros ou descendentes daqueles que nos vendiam o sonho de uma vida melhor no futuro. O pensamento fi losófi co aristotélico de que esta ciência se preocupa com a ética e a felicidade colectiva foi alterada. Apenas serviram- se da política e dos postos que ocupavam para satisfazer os seus caprichos. Se, anteriormente, acontecimentos como o 27 de Maio de 1977, as escaramuças de 1992 , e outros momentos menos bons fi – zeram com que muitos se afastassem dos desejos políticos, hoje os inúmeros escândalos políticos, desencadeados por aqueles que nos vendiam sonhos, afastam ainda mais os jovens. Com isso, apesar dos anos, o ‘xé ‘minino’ não fala política’, de Waldemar Bastos, ainda persiste em muitas mentes. É que 16 anos depois de se alcançar a paz em Angola, quando se supunha que começasse a emergir uma nova classe política, o cenário é praticamente o inverso, até mesmo naquelas supostas famílias políticas tradicionais em Angola. Há mais probabilidades de surgirem as Sanna Marins, entre as vendedeiras ou fi lhos de vendedeiras que deambulam, diariamente, pelas cidades e aldeias deste país, do que cidadãos ungidos nalguns lares e berços de ouro por falta de modelos. A nobreza da política foi sendo arrastada pelo amor aos cifrões, sobretudo nas famílias SA. E a inexistência de modelos internos vai-se agravando à medida que se atribui à ética uma importância mais acentuada. Afi – nal, a política sempre foi para servir e não para se servir. É que, apesar da existência de alguns casos de sucesso, como o de Uhuru Kenyata (fi lho do primeiro presidente Jomo Kennyata) , no Quénia e outros, em África, para muitos, os lugares da frente só são alcançados com recurso aos habituais fretes, como os exemplos de Ali Bongo, no Gabão, ou o quase presidente da Guiné-Equatorial, Teodorin Nguema. Então que se deixe a(o)s Sanna Marins brilhar em África, na Europa e noutras partes do mundo.