Antropólogo diz que natal é fruto da colonização

O antropólogo Eduardo Patrício afirma, em declarações a OPAÍS, que a comemoração do Natal, a assinalar-se amanhã, passou a fazer parte das celebrações africanas com a chegada da colonização, fruto da autorização do cristianismo

Por:Maria Teixeira

Eduardo Patrício diz que existem outras celebrações que para os africanos têm bastante relevância, como o nascimento de um filho. O feito que movimenta a sociedade de tal forma que as famílias se unem. “Até hoje, muitas sociedades africanas ainda consideram isso”. As outras datas que para si assumem a mesma importância, para alguns povos africanos, têm a ver com a colheita, a circuncisão e a coroação de um rei. “Com a chegada dos portugueses e a introdução do cristianismo, eles começaram a praticar isso de tal forma que era algo mais espiritual.

As pessoas tinham mesmo o Natal como o nascimento de Cristo, apesar da história que já conhecemos”, declarou Eduardo Patrício. Disse que, contrariamente ao que acontece actualmente, as pessoas viviam mesmo a espiritualidade do Natal e celebravam de uma forma diferente, mostrando que Cristo nasceu nos corações. A título de exemplo, contou que ainda quando criança faziam o presépio e tinham direito a presentes. “De uma maneira geral, os homens naquela época viviam mais o Natal espiritualmente. Hoje, as pessoas vivem o Natal do ponto de vista mais material. Se perguntarmos a alguém por que está a fazer bolos e compras, vai responder apenas que é Natal, e ponto”, frisou.

Data tornou-se mais comercial do que espiritual

O antropólogo considera que a celebração dessa data é mais comercial do que espiritual e apenas alguns cristãos celebram essa data, exemplificando que há adventistas do 7° Dia e fiéis da Testemunhas de Jeová que não o celebram, alegando que não é algo bíblico. Disse ainda que essa data deixou de ser um facto de reunião familiar, como acontecia antigamente, passando a ser um momento de convivência e divertimento e não tanto união familiar. “Antigamente, as pessoas procuravam passar o Natal na casa da mãe ou da avó. As famílias se reuniam e comemoravam em casa da pessoa escolhida. Agora, as pessoas vivem apenas o momento, sem a questão muito da reunião familiar”, disse.

Por outro lado, sublinhou que a essência do Natal não é materialista, mas sim espiritual. Em seu entender, as pessoas perderam a essência que era espiritual, isto é, “preparar os nossos corações para a vinda do senhor, conforme nos ensinou a própria Igreja, porém, hoje, é mais mercantilista, materialista e consumista. Perdeu- se a verdadeira essência do Natal, que era mesmo de preparar os corações estando em família”. Acrescentou de seguida que, “até naquela época, as famílias procuravam esse momento para fazer as pazes. Nesse dia eram unidas e procuravam, nesse momento, juntar as pessoas que não se falavam. Hoje, não temos mais isso. Passa-se o Natal com o vizinho e amigo, de tal forma que vejo isso com uma grande tristeza, porque se está a perder a verdadeira essência do Natal”. No entanto, declarou existirem famílias que não perderam essa essência.

“A sociedade tem outras celebrações que unem as pessoas”

Segundo Eduardo Patrício, de uma maneira geral, a sociedade tem outras celebrações que fazem com que as pessoas se unam. O Natal não é o único aspecto que unia as famílias. No seu ponto de vista, essa “mudança”, que se regista na sociedade angolana, se deve, fundamentalmente, à imitação de hábitos e costumes que não fazem parte da nossa cultura, ou seja, viver como os outros vivem. “O ocidentalismo e o mundo digital penetraram de forma muito profunda na nossa sociedade. As pessoas já não vivem as suas culturas. Vivem a cultura do imitar. Os aspectos negativos, infelizmente, é que imperam hoje em dia”, considera. Eduardo Patrício defende que para as famílias viverem em harmonia com o Estado, a própria família, as escolas e outras instituições, como as igrejas, devem fazer bem o seu papel. “Hoje, as próprias igrejas encontram- se em desequilíbrio. Há uma crise religiosa. Então, as instituições estão a falhar, por isso é que o Natal já não tem a verdadeira essência. Até porque os africanos viviam bem mesmo sem o Natal”, afirmou.

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