Adeus, amigo João

Adeus, amigo João

Sentados num lugar que se acorda com o primeiro canto do galo, Bartolomeu de calças jeans coçadas, calçava sandálias de cabedal e usava cabelo curto e o João um cambuta vigoroso com os músculos dos braços e das costas salientes, de cabelos crespos, olhos grossos sempre inquietos, também militante das jeans coçadas, olhos inquietos, esbanjavam diálogo.

Folheavam, o tempo da avó Maria, com caligrafia elegante, dos tempos áureos do Quéssua, quando copiavam e liam cabeça-braço- mão-perna-pé, a propósito dos erros ortográficos de hoje que nossos doutores cometem sem vergonha. Para além da desejável ressurreição generalizada dos quadros de honra em todos níveis do ensino.

Cansaço não parecia percorrer suas veias. Mesmo com a queda do muro de Berlim Bartolomeu aguardava pelo regresso do socialismo, diferente do João aparentemente despido das ideologias políticas da juventude.

As horas retardavam o adeus da separação, quando a recordação, era o tempo que mulheres com montanhas de carnes inflamadas rasgavam as roupas e eram assim consideradas as mais lindas!… Todos estes incêndios verbais pareciam adiar a reforma das suas idades. Espontaneamente partilhavam gargalhadas. Pareciam mais velhos matulões repetentes que caçavam o lanche dos mais novos estudantes distraídos.

Recordando Celmira que vestia quase sempre mini saias e de salto alto, a menina mais linda do liceu, o que a tornava mais atraente ainda era o facto de que conduzia uma mini Honda (rainha da elegância virou baleia da elegância!).Ou dos professores serenos com óculos de alta graduação capazes de descobrirem as mais bem escondi- Carmo Neto das cábulas. As horas retardavam o adeus para o dia seguinte, sobretudo quando a razão fosse o grau comparativo de desenvolvimento nacional se melhor aliados fôssemos sempre do mundo desenvolvido.

Sendo filhos de gente importante era curioso o pingue-pongue do João e Bartolomeu sobre geografia universal, dois velhos amigos, orgulho do liceu da época: -Devemos ser nós próprios com os nossos milionários angolanos a desenvolver o país, afirmou o João. -Mas porquê? -questionou o Bartolomeu, bruscamente agitado. -Deves ser mais global porque o mundo hoje é uma aldeia. -Porque já vamos bem melhor só com os nossos – respondeu ele, de voz excitante. -Nossos milionários já ajudam o país a crescer. -Ah, isso é uma anedota-retorquiu o Bartolomeu, muito agitado. –

Temos que estar com o mundo. Ao contrário não vamos longe. Com os outros países do mundo seria uma boa aliança. -Não concordo, concluiu o João de forma categórica. De repente o telemóvel reivindica que Bartolomeu atendesse a chamada. Levou tempo para o efeito. Fixou o aparelho sobre o ouvido a mascarar para o João que nem tudo entendia, mas mal ouvia a chamada do seu chefe milionário para viabilizar sua ida para os Estados Unidos acompanhado da secretaria antecedida do curso básico de língua inglesa, corria para o aparelho.

Bartolomeu sempre assumiu a magia do romantismo fatal e das esperanças utópicas do fim do capitalismo. Mesmo contrariado com a nostalgia do ideal frequentou o curso de inglês para sua superação profissional nos Estados Unidos, questionando sempre a incompetência da secretaria cujo inglês resumia-se ao yes, mas usava cabelo tratado de véspera com uma parte do postiço a cair-lhe de lado e vestia um vestido de um dos melhores costureiros portugueses, mesmo a viver em Angola trata do cabelo em Portugal.

No seu quintal a jogar pinguepongue durante a despedida fartou- se Bartolomeu de ouvir o conselho para melhor aproveitamento do curso. João murmurou- lhe palavras meigas e seu pai observava para ele com um ar de alegria. Todos desejaram-lhe boa sorte. Pessoas de todas as cores e etnias, desempregados e trabalhadores, todos desejavam o destino da boa sorte e ele numa carta endereçada ao velho amigo, não tardou em responder, a partir da América, a devolver o encorajamento no fim escreveu ao amigo João: Adeus, amigo João! Mahezu,ngana.

Carmo Neto