“Diversificar a economia é muito mais que aprovação de decretos”

A Presidente do Conselho de Administração do Grupo Diside, detentora da fazenda ‘Perola do Kikuxi’, Elizabeth Dias dos Santos, em entrevista exclusiva a “O PAÍS”, aborda o impacto da crise financeira no sector produtivo com destaque para a aquisição de matérias-primas, sem acesso a divisas para a produção de ovos e frangos. Por conta disso,este ano, o nível da produção de ovos baixou de 1 milhão para 600 mil

Por:Norberto Sateco

Qual é o estado actual da produção nacional, neste contexto de crise financeira internacional?

Hoje, fazer o balanço das empresas é muito questionável; dizer que tudo correu bem, não estaria a ser honesta; porque estamos a manter a produção e a estrutura com muito sacrifício. O que lhe posso dizer é que está muito desafiante, a produção nacional não é fácil em nenhuma parte do mundo e em Angola é quatro vezes pior. Acho que chegou o momento de sermos todos realistas e pensar se paramos, continuamos, ou ouvimos o que se está a passar. Todos nós reclamamos, mas não queremos saber aspectos como o acesso às divisas. Quem produz tem que ter condições favoráveis, tendo em conta o contexto. Diversificar a economia é muito mais que aprovação de decretos, é muito mais que fiscalização, devíamos estar a olhar para os nossos solos, para o perfil do produtor, o tecido empresarial, diagnóstico ao enorme parque industrial, mas não de forma empírica.

Ainda sente-se que os expatriados são mais privilegiados em relação aos nacionais?

aÉ um facto, por terem saído de vários países e terem que criar uma condição especial. Mas, o que é certo é quê passados 20 anos o expatriado não pode estar no país nesta condição, deve ser residente, ou ser contratado nas mesmas condições que os nacionais. Somos daqueles grupos que durante muito tempo tivemos à volta de 30 expatriados, hoje só contamos com 24, mas têm um comprometimento com o país. (…) Ninguém vai investir num país na agricultura, sem que ela seja rentável. Ninguém vai resolver problemas no país do outro, se não tiver benefícios, temos que pensar como angolanos. Temos que dar seprimazia aos nacionais e os expatriados apenas naquelas áreas específicas onde tenhamos alguma dificuldade de pessoal com qualificação profissional.

Fale dos constrangimentos dos factores estruturantes da produção nacional com destaque para a área em que actua?

As pessoas, às vezes (…), quando falam de ovo pensam apenas num ovo. Por detrás temos uma máquina grande com objectivos por atingir e elevados níveis de qualidade. Produzir um ovo não é só apenas o ovo, os resultados que nós temos da produção de frangos é no máximo nível da qualidade, por que senão estaríamos a alimentar a população com animais doentes. Só para ter uma ideia, tivemos que investir numa central eléctrica e somos taxados como consumidores finais e não temos sentido como se fossemos uma indústria. Tivemos que investir numa central de tratamento de água e somos cobrados pela EPAL como se fossemos consumidores finais. Temos um plano de necessidades anual, para manter os níveis de produção interna, se isto não é respeitado por outros órgãos com a mesma responsabilidade como os agentes do sector financeiro, como por exemplo a AGT, significa dizer que todo um trabalho que a empresa desenvolve fica comprometido. Temos vindo a ser afectados com aquilo que têm sido os nossos objectivos, já devíamos ter uma produção de frangos de 10 mil aves por hora, mas continuamos com 2 mil e quinhentas.

Tivemos um período de paralisação por acreditar na parceria com um único grupo que faz o fornecimento de pintos e que tiveram aberturas de CDI’s. Em menos de uma semana fomos informados que não seria possível fornecer os pintos, tivemos que fazer um esforço financeiro enquanto privado para repor a produção de frangos que já existe, quando devia ser uma questão de concertação.

Qual foi alternativa encontrada diante desta situação? Tivemos que avançar, numa primeira fase, com uma necessidade de importação de 200 mil euros de pintos, quando temos um grupo que faz localmente, que nos permitiria ter uma vantagem, tornando o produto menos oneroso, elevando o peso superior a estrutura e consequentemente ao preço. Não há articulação entre as unidades.

Qual foi a vossa produção este ano em termos de ovos e de frangos? Houve uma descida considerável. A nossa capacidade instalada é de 1 milhão de ovos e chegamos a baixar para os 600 mil por dia. Estamos a trabalhar para repor esta produção. Se reparar, o mercado ressentiu esta produção da Kikovo e o preço do ovo aumentou no mercado, coisas que já não se ouviam há algum tempo (…). Isto reflecte as dificuldades que a Kikovo teve, sem desmerecer aos outros produtores. Nós temos estado a aguentar o mercado, imagine outros que saíram e fecharam.

Como tem mantido os níveis de produção com as dificuldades sobretudo no acesso às divisas? Temos três grandes factores de produção determinantes, comdestaque para a água, captação e tratamento, que é mais fácil. Depois temos a alimentação que tem a ver com o milho, a soja e as vitaminas. Ao nível do milho, o país tem uma produção, mais não é suficiente para alimentar o sector animal, quer o sector social por via da fuba. O nosso grande problema é que o nosso milho concorre com dois grandes sectores: humano e animal, e a capacidade produtiva não é suficiente. Só a Fazenda Kikuxi consome anualmente 25 mil toneladas de milho.

Com esta restrição da importação de milho houve uma apetecia, ou seja o executivo faz uma coisa de um lado e, do outro, os mais inteligentes do comércio inventam outras regras, e nunca vi tanto libanês, cubanos e luso-angolanos articulados, e nós produtores ficarmos reféns deste mercado. Por isso é que tem estado acontecer, além da saída de alguns produtores, houve aumento das matérias-primas. Os mais entendidos saíam das fazendas produtivas, compravam produtos para fornecer à Fazendo do Kikuxi e apresenta-se com dono do milho. E nós que somos produtores finais ficamos reféns do preço que se pratica, inflacionando o mercado e as matérias-primas dispararam e quem vai sofrer com isso é o produtor final, porque alguém viu oportunidade de especular. Quando devia haver, nesta área, concertação para identificar quem são os que estão a produzir matéria-prima e saber a capacidade interna de produção de milho, ou então se há um défice, e a que preço, tudo isso são políticas de concertação.

Acha que esta a faltar mão da entidade reguladora no comércio rural e na política de preço? Angola tem uma economia de oportunidades. Por mais que o executivo crie regras, a informalidade é muito forte. Se tivéssemos o sistema formal seria fácil regular, com informatização em alta, por mais que os agentes económicos queiram fiscalizar os que têm o domínio da informalização caiem na rede.

Desafios da transformação e distribuição?

Trabalhamos enquanto grupo nos três grandes sectores de proteínas para a saúde humana, nomeadamente o ovo, carne e peixe. Ao nível de ovos o país lutou bastante e conseguiu organizar esta área que já foi uma anarquia. Todo mundo importava ovos, desde a China, Japão e outros países. Mas, com a imposição da validade do ovo ficou difícil, até por uma questão normativa internacional para o consumo humano é de 28 dias. Sendo esta uma regra, a organização de processos, para quem quisesse importar, e tempo de navegação o ovo quando chegasse não tinha condições por passar os 28 dias. Significa dizer que tinha que trazer os ovos por via área e que fica muito caro, logo deixou de ser competitiva. Há muito produtor nacional, mas com a desvalorização da moeda, acesso a divisas e matéria-prima, aqueles grupos que não estão muito bem estruturados acabam por desaparecer. Sou daquelas pessoas que defende projectos-âncoras, não para criar monopólios, mas ser aquele parceiro directo do executivo. Por exemplo, nós a Kikovo, vamos dizer, somos os maiores produtores de ovo, até que provem o contrário. Para trazermos a auto-suficiência de ovo no país, nós precisamos da produção de 5 milhões de ovos por dia. Até 2014, o país chegou a produzir mais de 2 milhões de ovos por dia. Com a crise, houve um decair, estamos agora andar à volta do 1 milhão e 800 mil.

Um projecto-âncora é aquele que vai dizer ao executivo as necessidade para a auto-suficiência no país é de 5 milhões de ovos por dia. O que é necessário para tal, é assegurar as matérias-primas, comprar alguma matéria-prima em mercados do futuro, porque o milho é bolsista. Não adianta importar um contentor quando se nós importamos navios faz baixar automaticamente este custo. O que é que está ser feito ao nível da produção, cobre quanto da produção interna, ou vamos importar mais? E assim faz-se a diversificação sem comprometer o próprio consumo interno.

Com estes factores que citou, acha que o país chegaria a atingir a auto- suficiência num horizonte de quantos anos?

Nós com um bom projecto e comprometimento em 5 anos, somos capazes de apresentar um projecto sério e com resultados. Quando começamos na Kikovo todo mundo disse que era impossível fazer ovo de qualidade no país. O argumento é que os empresários não estavam capacitados, Angola não possuía condições para a produção de ovos e nem de frangos (…) com a desvalorização da moeda quem importa o frango está vulnerável a uma série de situações, devíamos aproveitar esta grande oportunidade. Nós estamos a trabalhar nas matériasprimas e o nosso próximo projecto é cobrir 40 por cento da quota de produção de frango no país.

Sou contra o falar de números tão grandes, mas os nossos projectos tendem a ser projectos onde apresentamos o plano global e depois a fase de implementação. Significa dizer que o projecto para arranque, estaríamos a falar de 50 e 60 milhões de dólares, mas nós temos o binómio operação (…) temos o plano de arranque, terminou o pavilhão para os animais, depois avançamos para outra fase, significa dizer que quando nós avançamos na fase final, já não temos necessidade de um incremento tão grande porque o projecto em si já está a produzir, esta é a nossa política. Eu de forma racional nunca falaria de um projecto acima de 100 milhões de dólares, quando se fala de criação animal e de abate de animais. Depois temos outros lados que são as matérias-primas.

Sei que é pretensão vossa a produção de cereais para suprir o mercado em matéria de rações?

Nós ainda, porque na altura nos foi dito que os projectos estavam repartidos e eu sou a favor de especializações de grupos. Mas, como a fazenda do Kikuxi assenta numa gestão especializada, neste caso a EPIMASTER e DISIDE, fizeram todo um desenvolvimento para a criação de um outro projecto que tenha que ver com matéria-prima. Com as dificuldades de acessos às divisas não podemos continuar a pensar na importação, temos necessidade de importação mas é preciso apresentar um plano estratégico do Executivo que tenha que ver com as matérias-primas. Regra geral, para se falar de diversificação de uma economia séria é suprir as necessidades para alimentar a industria e nós fizemos o contrário. Construímos grandes indústrias que são reféns da importação, os custos produtivos tendem a ser altos, com a dificuldade de acesso a divisas torna muito difícil as indústrias se manterem vivas. Por isso, estamos a trabalhar em Malanje num projecto para a produção de milho e soja, sem um índice de gordura acentuado para as galinhas poderem produzir ovos.

Qual é a sua visão sobre os programas de apoio à produção nacional? (…) Eu às vezes me pergunto, se o nosso problema estão nos programas ou então nas pessoas?!

Está nas pessoas. A nossa economia é informal, financiada por elementos nacionais ou expatriados a quem o Executivo aposta, mas são os mesmos que também dão o tiro nas políticas do Executivo. Não há programa nenhum que poderá vincar. A produção não tem que ter rosto, tem que ter números. Acho que as pessoas que aprovam estes programas tem que ser repensada. A estratégia do país esta montada, o que falha é quando sai do Executivo para baixo. Há quem diga não existir sensibilidade do empresário, há quem pretende financiar, mas eu acho isto mais uma desculpa.

A banca aponta com frequência projectos sem viabilidade apresentados pelos empresários como o motivo do não financiamento. Este argumento colhe?

É o jogo do gato e do rato. Mas também aqui é preciso dizer que estamos a precisar de um banco estratégico para o sector agrário. O Executivo aposta, na sua maior parte, em bancos comerciais, e estes não têm também as condições suficientes e necessárias para avaliar muitos dos projectos que lhes são entregues. Conheço camponeses que, sem conhecimento nenhum, do pouco fizeram muita coisa. Agora, o banco de forma estratégica também pode criar um gabinete de apoio aos projectos que está a financiar, evitando o crédito mal parado, conseguindo o perfil do empresário a financiar, a ficha técnica da avaliação. Temos a capacidade de ir lá fora e compra Rolex, temos também que apreender o que é de melhor produtivo, na correcção de solos, produção de aves… O problema é que esperamos muito de lá de cima e lá de cima esperar de nós, e depois não há uma linguagem compatível em dizer que isto é um orgulho nacional, o problema é nosso vamos lutar todos. Fala-se do Congo e os seus problemas mas têm um sentido de patriotismo extraordinário, fui ao Senegal e fiquei espantada. Costumo dizer que o barco mais podre neste pais pesca mais que o nosso mais “top”. É preciso fazer uma correcção agora.

Qual tem sido o impacto da desvalorização da moeda e o fraco poder de compra dos consumidores ?

O ovo é um produto de responsabilidade social, pois enquanto produtora não posso vender um ovo ao preço de 100 Kz. Significa dizer que quando chegar na produtora estará a 200 Kz. Já reduzimos, ao nível de estruturas, o impacto da desvalorização da moeda, implementação do IVA, não acesso a divisas e um provável aumento nos combustíveis, tudo isto tem custado o bolso. Não sei como vai ser 2020, é uma situação insustentável, mas os anos pares tendem a ser de sorte.

Olha para o próximo ano com algum optimismo? Qual será a sua estratégia?

Trazer a Kikovo aos níveis de 1 milhão de ovos por dia que baixaram consideravelmente este ano. Vamos investir fortemente em cereais na ordem de 5 milhões de dólares, não queremos indústrias muito grandes, queremos trazer um modelo de sequeiro e pivot.

 

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