“Não podemos empreender no sector têxtil sem que antes tenhamos indústrias”

O coordenador geral do projecto “Modangola”, Daniel Pires, em conversa com O PAÍS, falou sobre as prioridades do evento realizado, recentemente, em Luanda, e das barreiras tidas na área, no sector têxtil, que tem dificultado o trabalho dos estilistas e a sua rentabilidade

Por:Antónia Gonçalo

O promotor de eventos que tem dado oportunidade a novos talentos, tanto estilistas bem como modelos, em mostrar o seu potencial, considerou o sector têxtil no país como uma área rentável, que segundo ele, também ajudaria o Governo a conseguir parte dos 500 mil posestos de emprego tanto almejado, sobretudo por parte da juventude

A VII Edição do “Modangola” realizou- se, recentemente, em Luanda, sob o lema “Produzir para transformar – indústria têxtil como fonte de receita na revitalização da nossa economia”. Que mensagens pretenderam transmitir com essa máxima?

O nosso foco desde o começo do projecto foi o fomento do sector têxtil no país. O “Modangola”, por ser um evento nacional e de carácter anual, e pelo facto de o país estar a “lutar” para se firmar, ou manter-se no quesito de cada sector, criamos sempre temas ousados para chamar a atenção e com alguma preocupação, porque houve muitos investimentos no sector que infelizmente não deram frutos. Então, não se pode falar deste sector sem antes abordar sobre a matéria- prima.

Como assim?

Eu posso produzir uma camisa, mas antes tenho de pensar no material que vou usar para a sua produção. A nossa preocupação agora é em relação ao investimento neste sector, e o seu fomento. Para isso é necessário que se faça a produção e o cultivo do algodão e outros meios, para a aquisição de obras-primas, de modos a evitarmos despesas com a importação. Os produtos utilizados estão cada vez mais caros. Isso porque temos que comprar no exterior para assim poder trabalhar. Por isso é que este ano criamos um leque de informações, para ver se os estilistas e os criadores de moda, principalmente o Governo, possa ver que em todas as áreas de acção no país, cada jovem, quer seja o músico, está preocupado com a produção de discos, os jornalistas com a informação e os produtores de moda com a indústria têxtil. A indústria da moda não foge à regra.Por isso debatemos essa questão, para de alguma forma criar espaços e oportunidades para os jovens neste ramo, quer sejam costureiros, alfaiates, modistas, empresários e demais interessados.

O país tem alguma fábrica de confecção têxtil? Ainda não! Tivemos algumas fábricas, a África Têxtil, em Benguela, a ex-Satec, no Dondo, e da Textang II, em Luanda. Essas estão a servir de museu, porque não produzem. Estão paradas e não funcionam. O Governo fez um investimento bilionário naquelas fábricas e estão conforme estão. E nós que trabalhamos com isso, não conseguimos beneficiar delas, porque encontram-se paradas. Por isso é que o empreendedorismo no sector, deste modo, fica com debilidades, uma vez que não podemos empreender sem que tenhamos indústrias funcionais.

Desse modo, a classe do sector tenciona em insistir neste assunto?

.Sim! Será sempre assim até a coisa pegar. O “Modangola”, em particular, vai sempre tocar nos interesses para o fomento da indústria têxtil no país. Na verdade, o nosso real interesse é que haja empresários a investir neste sector, que na verdade é bilionário em todo o mundo. Se fizermos uma triagem histórica, só mesmo em Angola, para não falar de outros países, até 1973 dependia da agricultura. Uma das grandes fontes de receitas no país era o algodão. Se os empresários começarem a investir na indústria têxtil, na transformação do algodão para retorcer dinheiro aos outros produtos, para atingirmos a produção têxtil, vamos ter, a meu ver, todos os sectores a funcionar.

O que aconselha o Governo a fazer agora para a curto, médio e longo prazos possa ver solucionada esta questão?

Felizmente, o nosso Governo está bem classificado. Temos um Ministério da Indústria. Se não tivéssemos seria outro problema. Também temos um histórico. Então, é preciso que haja investimentos. O Orçamento Geral do Estado (OGE) é repartido para cada ministério. Temos que começar a perceber que o Estado também está preocupado com isso, mas que o empresariado tem de começar também a despertar a atenção para o investimento neste sector. Na verdade, o Governo é uma estrutura institucional, que vai de alguma forma viabilizar a situação, mediar as questões políticas e outras. Agora, senão tiver uma abertura política no sector, o empresário não vai investir. Se ao nível da política não se abordam essas questões, o empresariado não tem como investir, porque não terá argumentos suficientes para fazê-lo. Ele é uma pessoa imediatista, quer investir, mas também espera colher.

O nosso mercado chega a ser rentável para investimentos do género?

Sim. Vale a pena, sim, investir neste sector. Ainda no quarto trimestre do ano em curso, o Governo, ao nível do Ministério de Economia e Planeamento e da Indústria convidou uma consultora para realizar pesquisas sobre a indústria têxtil no país. Por acaso tive a oportunidade de participar num desses seminários. Fez-se uma triagem, um levantamento, que Angola, mesmo sem as fábricas de produção têxtil, produz mais de 18 milhões de peças por ano. Já imaginou se houvesse fábricas a funcionar? O número de peças que seriam produzidas e o dinheiro que poderia retornar desse trabalho, assim como os postos de trabalho que é uma das grandes metas na governação do Presidente João Lourenço? É só para ver a dimensão do negócio.

Por que considera que esse sector contribuiria para tal pretensão?

Tenho dito que o sector têxtil é o que mais emprega ao nível do mundo. Isso porque para a área funcionar na totalidade é necessário que funcione o cultivo de algodão, as fábricas de confecção e as redes de lojas, para receber o produto final. Entretanto não existe no país uma fábrica a funcionar… Temos algumas fábricas do sector privado. As que mencionei anteriormente, mas não são de produção têxtil. Existem diferenças entre a fábrica de produção têxtil com a de confecção.

Pode explicar melhor?

A primeira é aquela que produz o tecido para a confecção das roupas. Temos a África Têxtil em Benguela e a Textang II, que deixaram de funcionar. Por isso, vamos continuar a falar sobre o assunto até que se perceba que o investimento nesta área por parte do Estado é de interesse geral. Da mesma maneira que temos a necessidade em nos alimentar todos os dias, sentimos também essa obrigação de cobrirmo- nos, ou vestir diariamente. Nós compramos roupas todos os dias. Como é que não se investe naquilo que é para o bem de todos, que satisfaz as nossas necessidades? Até porque não usamos o tecido só para fazer roupas. Em nossas casas usamos as toalhas de mesa e de banho, os lençóis que nos cobre nas noites frias. Por isso digo que a roupa, assim como o alimento, são coisas que necessitamos diariamente.

Estamos a falar simplesmente da produção interna?

Governo deva preocupar-se com este sector, porque para que seja concretizado é preciso fazer com que as indústrias funcionem. Por isso, estamos acostumados a viajar e comprar no exterior, porque é mais barato. O produto também é mais acabado e tem maior qualidade. Mas se tivermos essas industrias a funcionar no país, o preço e a qualidade dos produtos serão acessíveis, porque são vários os cidadãos que adquirem roupas pronto-a-vestir. O que notamos também é que as roupas feitas pelos estilistas angolanos, muitas vezes os preços são considerados exorbitantes, porque a questão está relacionada com a obra-prima, o material usado para a sua produção, que são importados. Não produzimos botões, agulhas, linha e o próprio tecido. Tudo que você não produz e, por consequência, importa, torna obviamente o produto final mais caro.

E os panos africanos, também compram no exterior?

Sim! Por isso é que esses tipos de panos são actualmente os mais caros, porque são investimentos estrangeiros. Até os panos Samakaka, original, não é produzido por nós. Temos várias estampas, produtos naturais como a Welwitschia Mirabilis, a Palanca Negra, O Rei Mandume e a Rainha Jinga, que podem servir de estampas para vários tecidos, de modotambém a divulgar as figuras ligadas à nossa história, assim como os patrimónios nacionais. Até mesmo os estrangeiros, actualmente estão a usar muitos os panos africanos. Porque então não investir neste sector, que iria também dinamizar a nossa economia, conforme se pretende. Dou os parabéns ao artista e empresário Dji Tafinha que apresentou a sua linha de ténis de marca “GLX Galáxia”, também a Beatriz Frank, que é empresária da moda. Eles industrializaram as suas marcas e possuem roupas por séries. É desta forma que devemos fazer, para que o mercado reduza a importação.

E quanto aos Top Model’s?

O mercado angolano não tem Top Model. Se formos a ver, Angola ainda não fez Top Model. As angolanas que hoje “supostamente” o são foram feitas fora do país. Essa é a outra grande problemática que eu e os meus colegas temos de perceber, que o país só faz a indústria quando tem produtos. Por isso é que muitos lutam para internacionalizar as suas carreiras, para maior e melhor rentabilizar.

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