Nuno Álvaro Dala:

No quadro do ambiente natalício, OPAÍS procurou ouvir a opinião Nuno Álvaro Dala, um activista cívico que se diz convicto e que fez parte do caso 15+2. Porém, não para falar de activismo, mas da outra faceta dele que pouca gente conhece. Trata-se da sua veia cristã com os principais sacramentos na Igreja Católica e experiências religiosas com as Testemunhas de Jeová, os metodistas, os pentecostais entre outros grupos, mas-se tornou incrédulo relativamente à existência de Deus

Por: Maria Teixeira

Para ti, o que representa o Natal?

Não representa nada. Não acredito em Deus (ou deuses), Jesus Cristo, ou quaisquer outras figuras celebradas como salvadoras da Humanidade. Não acredito em nascimentos milagrosos. Não acredito em planos divinos de salvação da Humanidade, nem qualquer coisa semelhante. O Natal apenas me interessa como objecto científico (no âmbito da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia).

Como avalias a importância que as sociedades dão a essa celebração?

As sociedades, incluindo a angolana, dão uma importância tanto religiosa quanto secular ao Natal. Importância religiosa porque se trata da celebração do nascimento do Filho de Deus, enviado à Terra para executar o plano de Deus de salvação da Humanidade, segundo a Bíblia. Os angolanos cristãos – das mais diversas denominações, salvo excepção – celebram o Natal como um evento de significado universal, por entenderem que a vinda de Jesus Cristo na forma humana (através de um nascimento virginal) constitui um ponto singular na História da Humanidade.

Então, celebram o Natal (palavra que significa nascimento) imbuídos de um espírito de congratulação, expressa através de expressões, símbolos e rituais de essência e alcance religioso. Por outro lado, há um grupo de pessoas que, mesmo não sendo religiosas (não necessariamente ateus, porque estes têm posições muito claras e fortes) celebra o Natal, mas sob um significado diferente. Se para os religiosos praticantes – cristãos – representa a homenagem ao Filho de Deus e ao seu nascimento virginal, para os do segundo grupo, o Natal é uma oportunidade para celebrar a família, a fraternidade, a cooperação, a paz, a harmonia, a reconciliação, etc. Para tais pessoas, não interessam a ideia-força e o conceito original, o objecto original e as finalidades originais do Natal. Interessa como momento do ano em que as pessoas celebram os valores e princípios que mencionei acima.

Essa efeméride pode ser considerada como um momento de união entre as famílias?

Sim. Tanto os cristãos como os não cristãos (onde estão incluídas pessoas sem religião, embora crentes em algum deus ou coisa parecida) celebram o Natal como reunião das famílias e entre as famílias. Com o passar das décadas, até mesmo os cristãos passaram a celebrar o Natal mais pela dimensão familiar do que pela dimensão relativa ao objectivo fundamental que levou a Igreja Católica Apostólica Romana a instituir o Natal: celebrar o plano de Deus de salvação da Humanidade através da vinda do seu Filho Unigénito em forma humana.

Acreditas que o Natal contribui para adopção de melhores comportamentos entre os seres humanos?

Em todas as sociedades onde o Natal é celebrado constata-se um problema grave: a secularização. Outro problema sério prende- se com o facto de o Natal ter sido transformado, a partir do século XX, numa feira de vaidades e hipocrisias. Nesse dia, salvaguardas as devidas excepções, as pessoas celebram uma série de valores e princípios, adornam os seus actos de celebração com discursos de paz, de reconciliação, de solidariedade etc., mas as realidades de uma sociedade decadente e cada vez mais insensível se tornam evidentes no dia seguinte. As pessoas que celebram o Natal não o fazem no quadro de um compromisso de superação. Passada a euforia, voltam a reproduzir as mesmas atitudes e comportamentos contrários ao estabelecido por Jesus Cristo, conforme o registo bíblico nos evangelhos sinópticos (Mateus, Marcos, Lucas e João).

Como encaras o facto dessa data ser usada para a realização de actividades de solidariedade para com os mais desfavorecidos?

Os actos de solidariedade devem ser realizados todos os dias. Talvez o Natal seja útil ao lembrar às pessoas da necessidade de participarem de maneira construtiva na vida dos seus semelhantes, mas é preocupante que a maioria das pessoas tenha como que calendarizados os actos de solidariedade, facto que denuncia o carácter teatral dos estilos e regimes de vidas das pessoas hodiernas. Muito teatro, muita hipocrisia e muita falta de autocrítica ampla, profunda e transformadora de atitudes e comportamentos.

Achas que o mundo seria pior sem essa celebração?

Sem religião existem pessoas boas e más. Com a religião o número de pessoas más aumenta. A religião conseguiu segregar as pessoas e classificá-las segundo as suas crenças, de tal sorte que ser religioso (cristão, muçulmano, judeu etc.) passou a ser um critério definidor do caracter humano – o grau de nobreza de carácter de uma pessoa é determinado pela adesão da pessoa à religião. Todavia, a Humanidade nasceu sem religião. A grande utilidade do Natal tem sido, obviamente, a de encher os bolsos e a constas bancárias dos grandes grupos capitalistas. O Natal não passa de uma tentativa de transformar atitudes e comportamentos. Tomamos conhecimento de que era religioso e se tornou ateu.

O que te motivou a deixar de acreditar na existência de um ser supremo?

Eu fui baptizado a 25 de Dezembro de 1984, isto é, no Dia de Natal daquele ano, numa paróquia da Arquidiocese do Uíge (Igreja Católica ). Tinha 5 meses de vida. Aos 7 anos comecei a frequentar a catequese na Paróquia da Nossa Senhora do Cabo, na Ilha de Luanda. Continuei a frequentar a catequese, até a concluir, já na Paróquia Nossa Senhora das Graças. Levei o catolicismo muito a sério, tanto que, por volta do ano 2001, era uma certeza a minha ida ao seminário, onde eu daria sequência aos estudos para ser sacerdote.

Foi, porém, nessa altura em que, dada a minha tendência de não me contentar com o básico e de questionar até mesmo o inquestionável, eu passei a estudar de forma sistemática a História da Igreja Católica: o altamente complexo e contraditório sistema de crenças e doutrinas, a Inquisição, a perseguição e prisão de cientistas e filósofos, o cerceamento ao acesso à Bíblia, o papel da Igreja na colonização dos africanos e outros povos, a sua mancomunação com regimes totalitários, a sua posição dúbia em relação à luta de libertação nacional nas antigas colónias, principalmente as portuguesas, a pedofilia, o celibato e outros problemas levaram- me a ter uma crise de fé. Deixei de acreditar na Igreja. Então, em 2001, desliguei-me da Igreja Católica. Renunciei à fé católica.

E o que foi que aconteceu nos anos seguintes?

Nos anos seguintes, ao passo que me mantinha no activismo, tive experiências religiosas com as Testemunhas de Jeová, os metodistas, os pentecostais e outros grupos. Mas, acabei por me desligar de todos. Descobri, mediante pesquisas independentes, toda uma série de inverdades, atrocidades, manipulações, segredos tenebrosos etc. que me levaram a compreender que as denominações cristãs, por mais que aleguem seguir a Bíblia, não o fazem senão na medida dos seus interesses de grupo.

Finalmente, passei a estudar a Bíblia com recurso à crítica histórica, filosófica e científica. Estudei igualmente os diversos sistemas religiosos (Hinduísmo, Judaísmo, Islamismo, etc.) e seus livros de referência (Rig Veda, Torá, Corão, etc.). Durante a segunda licenciatura realizei estudos de Filosofia da Ciência e Filosofia da Religião. No mestrado, aprofundei estudos em Cosmologia, Biologia, Genética e Psicologia da Religião, bem como Antropologia.

E percebi que Deus não é a explicação satisfatória para a origem, complexidade e (in)finitude do Cosmos e da vida. Ademais admitindo que a Grande Explosão que deu origem ao Universo ocorreu há 13 820 000 000 de anos, as perguntas são: haveria entre a Grande Explosão (Big Bang) e a Parede de Planck um «estado numérico»? Dito por outras palavras: os números que conhecemos pelas matemáticas são prévios à realidade física? Ora, os crentes alegam que, se a reposta à referida pergunta for afirmativa, então Deus tem uma linguagem e uma gramática: as matemáticas que os humanos vão descobrindo e, com elas, descrevendo o mundo físico. Ora, tal asserção ou resposta não passa de uma presunção arbitrária. Resumir as respostas a Deus é demasiado simplista.

No teu ponto de vista, existe outra data a que os africanos deveriam dar a mesma importância ou superior à que dão ao Natal?

Existe: 25 de Maio, data da fundação da OUA (Organização de Unidade Africana, precursora da União Africana). A data assumiria um significado maior, no qual seriam celebradas as identidades africanas, o mosaico das culturas africanas e a retomada do legado da civilização africana. O Natal não deveria ser celebrado em África. Representa uma efeméride (fictícia ou não, esta é outra questão) ligada a um sistema religioso que tem servido durante séculos como instrumento de colonização religiosa, ética, cultural e política. A civilização africana sofreu uma violenta interrupção no seu desenvolvimento e a religião cristã foi usada como instrumento em tal processo.

Alegar que o cristianismo já está arraigado na estrutura religioso-cultural dos africanos é recorrer a um atalho fácil para justificar a falta de vontade de desfazer-se dos mecanismos de aculturação que, mais do que coloniais, têm contribuído para o atraso ou estagnação civilizacional do continente.

Como vês o papel dos africanos na consolidação do cristianismo?

Se os africanos fossem, na sua maioria, lúcidos sobre a História da sua Civilização ou Civilizações, bem como estivessem cientes do papel do cristianismo na ocupação e colonização do continente e fossem coerentes e consequentes, hoje não estariam a celebrar o Natal nem quaisquer outras festividades de matriz cristã. É uma contradição o africano ser cristão. O mesmo digo do Islamismo

PERFIL

Nuno Álvaro Dala nasceu no Negage, Uíge, em 1984. Linguista, pedagogo, metodólogo e professor. Licenciado em Linguística Portuguesa (Universidade Agostinho Neto, 2006). Licenciado em Pedagogia (Universidade de Winnipeg, 2010). Especializado em Estudos Clássicos e Metodologia de Investigação Científica (Universidade de Roma, 2012). Mestre em Educação Inclusiva (Universidade de Winnipeg, 2014). Doutor em Epistemologia e Metodologia das Ciências Sociais (Universidade de Frankfurt, 2015-/2017-2018). Investigador do Projecto de Pesquisa e Uniformização da Língua Gestual Angolana (INEE [Instituto Nacional para a Educação Especial], 2004-2005). Consultor do National Democratic Institute for the International Affairs (NDI, 2005-2009). Consultor da World Vision (2006-2008). Consultor da African Union of the Deaf (AUD, 2006). Fundador do Centro de Treinamento em Investigação Científica (CETIC, 2015). Professor na Universidade de Winnipeg de 2011 a 2012. Professor do Instituto Superior Metropolitano de Angola de 2013 a 2014. Professor convidado da Universidade de Oslo desde 2017. Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Jyvaskyla desde 2014.

 

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