Yuri Quixina: “Estar contra a especulação é estar contra as famílias, empresas e o desenvolvimento”

Yuri Quixina: “Estar contra a especulação é estar contra as famílias, empresas e o desenvolvimento”

É Natal e a festa é caracterizada por cultos especiais entre os cristãos, consumo exagerado e actos de solidariedade. Como viver o natal em tempo de crise?

É fundamental que as famílias vão aos supermercados com uma lista para comprarem o necessário, pois natal também deve ser dia de poupança. Reduzam algumas prendas, amigos ocultos, porque a família vai precisar dinheiro para comprar material escolar e para matrículas. Infelizmente, os nossos valores éticos e culturais foram alterados e, com eles, a desvalorização da nossa gastronomia.

Valorizamos mais a gastronomia portuguesa, tudo porque invertemos a nossa cultura gastronómica e os farmacêuticos estão felizes, porque desenvolve E o Presidente da República, João Lourenço, dedicou um Natal Feliz a todos, na habitual mensagem de ano novo.

É normal os presidentes fazerem esse tipo de discursos no fim de cada ano e aqui não foi diferente. Mas penso ter sido uma mensagem contraditória, sobretudo na parte económica. De modo geral, o Presidente concluiu que 2019 foi um ano de justificações das suas medidas.

Repito, na parte económica foi muito antagónica e pareceu- me que quem escreveu ou aconselhou o Presidente a colocar essa parte, domina muito a economia socialista e comunista, mas domina pouco a economia de livre mercado. João Lourenço disse que “os avanços registados ainda não se reflectem de forma directa na vida da população… por força da especulação de alguns comerciantes desoneste e da baixa oferta de bens e serviços essenciais de produção nacional”.

Onde está a contradição?

Primeiro, estar contra a especulação é estar contra as famílias, empresas e o desenvolvimento. Economia definida numa palavra e o seu sinónimo: preço e custo. Preço é o valor monetário que se atribui a um bem ou serviço. Quem determina o preço no mercado são as famílias, mediante a oferta e a procura. Já o custo de produção deve ser estimado em função do custo do mercado, porque o mercado já tem preço e há um confronto entre a oferta e a procura. Agora, o preço numa economia tem sinais. E como caracteriza os sinais de preço? Os sinais de preço são como o de uma criança quando está a aquecer muito, que sinaliza ter alguma enfermidade.

Com os preços a mesma coisa e traduzem três elementos importantes: informação sobre o custo de produção, sobre as estradas que não estão boas, sobre a taxa de câmbio, – por falta de divisas, sobre as importações, matérias-primas e outros factores. Segundo, o preço exprime a distribuição de rendimento. É através do preço que o empregador define o salário a pagar aos trabalhadores.

O incentivo, que traduzido é lucro, é o terceiro elemento, que consiste no prémio que o consumidor atribui ao empresário que prestou melhor serviço. Não é que o empresário seja gatuno ou capitalista. Mas isso só ocorre num mercado onde há competitividade e alternativas para o consumidor.

É daí onde vem o tiro na perna dado pelo Presidente da República, quando, a seguir, diz e cito: “Com vista a corrigir esta situação, o Executivo vem tomando todo tipo de medidas de fomento e incentivo ao aumento da produção interna…”. Então não é especulação, é a falta de produto no mercado que faz com que um ou dois agentes económicos a oferecerem produtos colocam os preços acima. Há muita procura e pouca oferta.

O natural é o aumento dos preços. Muita gente confunde especulação e manipulação. Qual é a diferença entre os dois conceitos? O que as autoridades económicas devem combater é a manipulação. Especulação é vida. Sou dos que defende especulação, porque promove riqueza e capacidade produtiva das empresas. A sua afirmação é contundente e não é a primeira vez que o Presidente fala sobre o assunto.

Afinal o que é especulação e o que é manipulação?

Manipulação é alguém ter informação privilegiada e manipula o mercado. Se alguém tiver, por exemplo, influência no BNA que lhe facilita o acesso às divisas, potencia um produtor no mercado. Já especulação é comprar barato para vender caro. E isso normal, sobretudo se estiver sozinho no mercado. Não existe nenhum país que se desenvolveu sem especulação e os Estado Unidos é o exemplo.

Que investidor entra numa economia onde o governo controla preço?!

Mas o direito criminaliza quem venda bem ou serviço acima do preço permitido por lei. Direito são normas feitas por um homem com interesses próprios. A economia tem leis próprias, que são as leis do mercado. O jurista que quiser definir lei sobre a economia deve estudar muito de economia de livre mercado. O que o Governo deve fazer é resolver os problemas do custo de produção.

Sugestão de leitura:

  • Título da obra: ‘Uma década de África’
  • Autor: Fátima Moura Roque, Professora Catedrática convidada de Economia Africana
  • Ano de lançamento: 2018

Frase: : “A felicidade está mais em dar do que em receber”, Jesus Cristo, Actos 20:35/Bíblia Sagrada

Yuri Quixina, economista.