Os anjos culpados

Os anjos culpados

Angola vive uma grave crise económica, isto não é segredo. Mas há um problema na forma como está a ser enfrentada a crise, optou-se, sobretudo, pela via do populismo e do arremesso político. Encontrou-se culpados e pronto, assunto resolvido. Mas isto não é verdade. Não está resolvido. A única verdade é que a forma como se lida com a crise pode semear problemas sociais muito graves, desequilíbrios que poderão surgir como grandes entraves ao desenvolvimento harmonioso da sociedade.

Recomeçando: há responsabilidades a ser assacadas, claro, tal como há lições a aprender sobre as causas e as características da nossa crise, e sobre as nossas possibilidades de sair dela. Mas há outros aspectos que não podem ser ignorados, como o facto de, em consequência, as pessoas estarem desfeitas económica e moralmente. Há que olhar bem para os efeitos da falta de dinheiro, da carestia da vida, do desemprego e da desesperança.

Atente-se aos níveis galopantes da prostituição, de todo o tipo e géneros, ao abandono escolar, à subida da criminalidade e ao abandono de recém nascidos. Não há semana sem notícia sobre bebés atirados ao lixo, a fossas, deixados na berma de caminhos. Isto é sinal mais do que sufi ciente para se deixar de brincar de políticas e encarar de frente as consequências da crise, que torna anjos acabados de nascer em culpados de alguma coisa e condenados à morte.

Na Europa ressurgiram as chamadas rodas ou janelas de bebés, em conventos e hospitais, em que os rejeitados são colocados, sob sigilo, para terem uma oportunidade de vida, aqui opta-se pela negação dos efeitos da crise, não há fome, não há prostituição, se calhar, não se emigra e, pelo silêncio, não se atira bebés ao lixo. Queira-se ou não, esta é a marca mais cruel e marcante do ano. Pena que os “seguidores” estreitem o discurso presidencial.