Yuri Quixina: A economia angolana está com sequelas graves do socialismo

Yuri Quixina: A economia angolana está com sequelas graves do socialismo

A Comissão Económica aprovou uma estratégia para mitigar os actos de especulação de preços na economia nacional, mas não define as medidas. Mas, se atendermos à mensagem do Presidente em relação aos ‘comerciantes desonestos’, temos uma ideia sobre o que irá suceder. Você está no sentido contrário. O que lhe parece?
Quero ser activista para uma boa economia de mercado competitivo, não quero ser activista para uma economia que tem sintomas de socialismo. Especulação só é inimiga das economia quando alguém deixa o socialismo para a economia de mercado e carrega algumas sequelas. Entretanto, a economia de Angola fi cou com sequelas do socialismo e vivemos com sintomas de socialismo muito grave. Por isso, o professor de Macro-economia Jacob Pereira Lungo – o grande ‘Jacaré’, dizia que um fi el convertido tem uma fé débil e se for a uma festa muda o comportamento. A nossa fé sobre a economia de mercado é débil. Angola não tem ainda uma fé do capitalismo do livre mercado, porque especulação é característica do livre mercado.

Mas um órgão com tamanha responsabilidade, como é a Comissão Económica, deve ter argumentos para chegar a essa conclusão, não acredita?

A questão que se deve colocar é: que medidas devem ser tomadas para combater a especulação? Tentem falar com as zungueiras no mercado. O problema não é o preço, mas o que está por detrás do preço: custo de produção, ambiente de negócios péssimo, falta de divisas e outros problemas. Está-se a procurar o efeito e não a causa.

Vamos à análise dos temas que marcaram o ano económico em 2019. Que avaliação você faz da política fi scal e os seus efeitos sobre a economia?

A política fi scal foi anti-crescimento, porque anti-empresários e anti-famílias. Aumentamos a carga fiscal e tivemos uma política fi scal muito obesa e complexa, o que destrói a economia, porque foi buscar o rendimento das famílias e das empresas, promovendo a sua falência. Aumentou o desemprego, porque os empreendedores fi caram com menos rendimento.

A política fiscal actuou também no crédito, na medida que o Estado foi à banca competir com as empresas e o povo. Consequências, hoje temos uma economia zombi, porque as políticas económicas estão viradas para o curto prazo.

Que fotografia você faz ao sector financeiro em 2019?

Calculo que tenha sido o pior ano para a banca, comparado com o ano passado. Tivemos falência de bancos, impulsionada pelo banco central. Se comparamos a banca como o coração no corpo humano, o nosso sistema fi nanceiro está com insufi ciência cardíaca.

Sugestão de leitura está a cargo da produção. ‘Economia do Bem e do Mal. Que comentários? O livro é Tomáš Sedlácek, que recusa uma perspectiva unilateral da economia, enquanto investigação matemática sem valor e descreve-a sobretudo como um fenómeno cultural e um produto da nossa civilização, com uma ligação profunda à fi losofi a, ao mito, à religião, à antropologia e às artes.

O autor, procurando compreender a Economia a partir dos valores das sociedades, aborda-a através dos tempos, desde O Épico de Gilgamesh e do Antigo Testamento até ao aparecimento do Cristianismo, passando por Descartes, Adam Smith ou ainda por fi lmes como Matrix e Clube de Combate.

A Economia do Bem e do Mal recebeu em 2009 o Prémio Wald Press e em 2012 o Deutscher Wirtschaftsbuchpreis, um galardão atribuído pela Feira do Livro de Frankfurt para o melhor título da área de Economia publicado na Alemanha.

Entre muitos assuntos provocatórios explorados neste livro que se tornou um bestseller, Tomáš Sedlácek questiona até que ponto o crescimento será a única resposta. Por outro lado, pergunta também se estaremos viciados no desejo de consumo e até que ponto temos de pagar realmente por aquilo que vale a pena. Em última instância, como referiu o autor, em 2015, quando esteve em Lisboa, ‘não estamos aqui para viver vidas úteis, mas vidas belas’.