Moxico: mel – renovar para rentabilizar

Moxico: mel – renovar para rentabilizar

David José

Em Angola, em particular no Moxico, a apicultura é uma actividade tradicionalmente ligada à produção agro-florestal. É encarada como um complemento da agricultura praticada por uma minoria de apícolas artesanais, para quem o mel é a base das receitas para a subsistência. O facto de o resultado dessa produção precária estar direccionado ao consumo da família dos apicultores dificulta o controlo da circulação do produto no mercado pelos fiscais do IDF. Até 2018, a fiscalização do comércio de mel era quase inexistente e ineficiente.

O chefe do Departamento Provincial do IDF, Paulo Macazanga Vidal, reconhece que a sua instituição apenas fiscaliza o excedente de mel posto em circulação para fins comerciais, e o mecanismo regista estrangulamentos devido à complexidade na sua implementação. Sublinha que o sector ainda não consegue controlar, na totalidade, a quantidade de mel exportada da província, por ineficiência do mecanismo de fiscalização, que impossibilita detectar os consumidores que optam pela fuga ao fisco.

Segundo Paulo Vidal, a produção artesanal de mel aumentou este ano para 12 mil e 520 litros, mais dois mil e 480 em relação à 2018. Este ano, a acção fiscalizadora permitiu ao Estado arrecadar uma receita de 447 mil e 36 Kwanzas, contra quatro mil Kwanzas em 2018, de acordo com o chefe do IDF, que defende a coordenação das acções dos produtores de mel com as dos comerciantes deste produto, para a sua rentabilização a favor destes actores e do Estado. O gestor é de opinião que o preço praticado actualmente – um litro ronda os 1.500 Kwanzas – prejudica o Estado, dada a impossibilidade de se arrecadar receitas correspondentes ao volume do produto comercializado.

O mel é produzido em sete dos nove municípios da província, designadamente em Alto-Zambeze, Bundas, Camanongue, Léua, Luacano, Luau, Luchazes e Moxico (sede). Por se localizarem numa área com predominância de chanas, o Luacano e Cameia não exploram este produto. No Moxico, a apicultura envolve 857 apicultores tradicionais distribuídos por 49 associações, detentoras de 42 mil e 360 colmeias, refere Paulo Vidal, frisando que maior quantidade de mel é vendida à Cooperativa Agropecuária, Pesca e Apicultura (Coap), vocacionada para a sua transformação, embalagem e comercialização, a partir de Luanda.

O gestor afirma que o IDF aposta na revitalização do sector apícola, com vista a transformá-lo num potencial capaz de equilibrar a balança económica do país, uma vez que o actual cenário penaliza os cofres do Estado. A estratégia consiste em aumentar para 80 por cento os níveis de produção e de transformação do mel localmente, com a qualidade exigida, para contribuir para a diversificação da economia nacional, refere o responsável, acreditando que isso também permitiria a criação de empregos para os jovens da região.

O chefe do departamento provincial do IDF propõe a realização de um estudo no mercado e marketing para a divulgação do valor do mel, bem como a criação de parcerias entre os pequenos produtores e as empresas especializadas privadas, a fim de investirem no sector.

Constrangimento

A fuga de abelhas das 150 colmeias modernas montadas nas florestas, por falta de hábito de convivência no novo espaço, constitui o maior constrangimento registado no processo da produção do mel. Assim sendo, Paulo Vidal sugere o treinamento dos apicultores para que se adaptem às colmeias modernas distribuídas no quadro do memorando assinado em 2017, na capital do país, entre o Ministério da Agricultura, representado pelo IDF, e a Coap, para a substituição, paulatina, das antigas (rudimentares).

Potencial de produção apícola

O Moxico tem potencialidades para o desenvolvimento da apicultura, pois dispõe de uma rica flora e fauna melífera, características edafoclimáticas, bem como uma tradição apícola. Na década de 70, numa altura em que a exportação dos produtos da apicultura atingiu níveis consideráveis, decorrente da grande procura no mercado internacional da cera, a produção de mel bruto atingiu os 454 mil quilogramas/ano. No referido período, durante cinco anos consecutivos, a província do Moxico teve uma produção estimada em 2.270 mil kg de mel bruto, sendo os municípios do Moxico, Luchazes, Bundas e Alto Zambeze e as comunas de Lucusse e Cangumbe as localidades mais produtivas e com maior tradição nessa actividade.

Tipo de mel existente na região

O mel é uma substância açucarada natural produzida por abelhas africanas, Ápis melífera, denominadas Abelhas e Miruin (Uhango). De acordo com a sua origem, existem dois tipos de mel: o mel de néctar – obtido a partir da secreção dos nectários florais ou extraflorais das flores das plantas, que as abelhas recolhem, transformam, combinam com substâncias próprias, depositam, armazenam e deixam amadurecer nos favos da colónia (Txicondo).

O outro tipo é o mel de melada – adquirido a partir de secreções ou exsudações de partes vivas das plantas (Hemiptera) ou excreções de certos insectos sugadores de plantas como os ofídios (Txissamba). Por fim, existe o mel em favos – armazenado nos alvéolos dos favos inteiros ou pedaços de favos (Txissamba) Quanto ao processamento, existe o mel obtido a partir do escorrimento dos favos desoperculados sem larvas e o prensado ou espremido, produzido a partir da compressão dos favos sem larvas com aquecimento ou sem aquecimento.

Colmeias e colheita

A actividade apícola é caracteristicamente tradicional. A cultura de abelhas efectua-se com o uso de colmeias ou cortiços feitos com cascas de árvores ou troncos escavados. O período de colheita do mel é realizado em função do tipo da flora melífera. Por exemplo, o mel Txicondo é colhido no período compreendido entre Maio e Abril, enquanto o Txissamba entre Agosto e Outubro. O mel, além de ser um óptimo adoçante natural, tem vários benefícios, pois, conta com uma acção anti-microbiana capaz de impedir o crescimento ou destruir micro – organismos e, assim, proteger contra doenças.

O alimento também possui uma acção antioxidante e prebiótica. Esta última modifica o balanço da microbiana intestinal, estimulando o crescimento e a actividade de microrganismos benéficos. Igualmente, por ser rico em carbo-hidratos e açúcar, o mel é uma óptima fonte de energia. Possui vitaminas do complexo B, e vitaminas C, D e E. O produto também possui potássio, magnésio, sódio, cálcio, fósforo, ferro, manganês, cobalto, cobre e outros minerais. Entre estes nutrientes, o potássio é o que está mais presente e é interessante para o equilíbrio da pressão arterial.

Também ajuda a cicatrizar e prevenir infecções em feridas ou queimaduras superficiais. As propriedades do mel no organismo humano também combatem a gripe e os problemas respiratórios, de acordo com a nutricionista Flávia Morais, da rede Mundo Verde. Devido às suas qualidades adstringentes e suavizantes, o mel é também utilizado largamente na cosmética: cremes, máscaras de limpeza facial, tónicos, entre outros. Por seu lado, a actividade apícola desempenha um papel importante na manutenção dos ecossistemas e espaços naturais, no equilíbrio ecológico da flora e na preservação da biodiversidade, influenciando o aproveitamento integrado e economicamente sustentável do espaço rural.