O universo de escândalos que rondam a Universal Angola

O universo de escândalos que rondam a Universal Angola

1. Dia do fim
Era para ser o “dia do fi m” dos problemas dos fi éis da Igreja Universal Angola, tal como dizia o cartaz publicitário que anunciava a vigília da virada (passagem do ano 2012 para 2013). Problemas como desemprego, doenças, miséria, falência, separação,
desentendimentos na família, feitiçaria, olho grande, entre outros, teriam sido sentenciados “o seu fi m” naquele dia. Infelizmente, a vigília do dia do fi m não correu bem e acabou pondo fi m à vida de uma dezena de fi éis da igreja.

O local escolhido para a vigília, o Estádio Nacional da Cidadela Desportiva, que tem capacidade para 70 mil pessoas, tinha cerca de 250 mil. O estádio não aguentou e tiveram registos de 10 mortes por esmagamento e asfi xia, sendo que perto de 120 pessoas ficaram feridas. O caso foi parar às barras do Tribunal Provincial de Luanda, que julgou os principais dirigentes da Igreja, acusados pelo Ministério Público de cometerem dez crimes de homicídio involuntário e cinco crimes de ofensas corporais involuntárias, por inobservância das opiniões técnicas. Entretanto, o tribunal absolveu os seis líderes e responsáveis da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola da acusação. O tribunal considerou que não reuniu “elementos sufi cientes para afi rmar com juízo de certeza” que os réus terão cometido os crimes de que eram acusados.

O Ministério Público angolano, que promoveu a acusação, tinha anunciado que iria recorrer da decisão. Importa frisar que a IURD foi alvo de anunciadas fi scalizações pela Procuradoria Geral da República (PGR), dos ministérios do Interior, da Justiça e Direitos Humanos e da Cultura de Angola. Entre Fevereiro e Março de 2013, o Governo angolano tinha ordenado a suspensão das actividades da igreja.

2. Bispo comete adultério

Em Fevereiro de 2018, o escândalo voltou a bater a porta da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola, desta feita, aparece o bispo brasileiro João Leite, então responsável máximo no país, envolvido num caso de adultério. Informações davam conta de que o bispo teve relações extraconjugais com outras crentes, no Brasil, tendo uma delas denunciado o facto. O mesmo bispo, que teve de ser afastado, não desmentiu o facto e apareceu num vídeo a pedir perdão. No vídeo em que
apareceu a esclarecer o escândalo, o bispo João Leite pedia que Deus abençoasse a todos e a deixou claro que não estava a fazer aquilo por ter sido mandado ou forçado.

Em companhia de sua esposa, Carla Leite, o bispo, até então responsável pelas “ovelhas angolanas”, dizia que estava a ser sincero com o Pai Celestial, a Igreja e a sua esposa. “Eu cai, eu traí a minha esposa, traí a minha igreja e os meus amigos”, dissera, tendo acrescentado que queria aprender a perder, sem se perder, pelo que pedia perdão a todos, incluindo
a Universal, porque é e sempre será “a Universal”. A Universal, a partir do endereço universal.org confi rmou, no dia 12 de Fevereiro, na altura, o afastamento do bispo com os seguintes dizeres: “A Igreja Universal do Reino de Deus lamenta informar o desligamento de João Leite do seu quadro de pastores e bispos devido à confi rmação de infi delidade conjugal”.

3. Pastor denuncia vasectomia

Em Março de 2019, um pastor da Igreja Universal Angola decidiu abrir a boca e denunciar, pela primeira vez, uma operação de vasectomia, que o deixou infértil. A denúncia foi tornada pública pelo Jornal de Angola. O pastor Alfredo Ngola Faustino contou que decidiu avançar com o processo à PGR, depois de ficar a saber, através de um exame de espermograma, que a operação de vasectomia que fez em Setembro do ano 2018 não o deixaria infértil apenas durante um período de seis meses ou de um ano, como lhe fora prometido, mas para o resto da vida. Segundo ele a promessa da Igreja era de uma simples operação de planeamento familiar, com carácter provisório, que não o deixaria infértil para sempre. A situação do pastor tornou-se mais complicada porque a esposa, que o incentivou a avançar com a operação, decidiu terminar a relação, coincidentemente ou não, no mesmo dia em que foi afastado das funções pastorais, numa altura em que faltavam três dias para completarem um ano de casados.

O pastor acredita que a Igreja teve intervenção directa na decisão da esposa de terminar o casamento. Como consequência da vasecotomia, o pastor disse estar a urinar sangue e, às vezes, verifi ca também vestígios de sangue nas fezes. Enquanto esteve em funções, contraiu Hepatite B e era, por isso, apoiado pela Igreja nos tratamentos. Porém, desde que foi afastado, o apoio foi retirado. “Neste momento, estou doente e não sei o que fazer, porque não tenho quem me apoie”, lamentou.

4. Processo-crime contra a IURD

O Ministério do Interior e o Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos confi rmaram, em Dezembro de 2019, em conferência de imprensa feita em Luanda, que a Igreja Universal do Reino de Deus (Angola) está a ser investigada e, caso se provem os crimes de que vem acusada por bispos e pastores, poderão ser-lhe aplicadas medidas como suspensão, revogação do reconhecimento ou a extinção da confi ssão religiosa.

O Serviço de Investigação Criminal recebeu em Janeiro a primeira denúncia (a princípio anónima) e em Novembro de 2019 a segunda, esta última que veio acompanhada do manifesto assinado por mais de 300 pastores e bispos angolanos. Acusações de práticas que atentam contra a integridade física do cidadão, branqueamento de capitais, racismo e discriminação, desvios de fundos, venda ilícita de património da igreja, entre outras, pesam sobre a IURD e são feitas por pastores e bispos de nacionalidade angolana.

Diante da gravidade das denúncias, segundo Waldemar José, director de comunicação institucional e imprensa do MININT, o SIC viu-se na obrigação de investigar e reunir provas, caso estas venham a existir. Foi instaurado o competente processo-crime e quem poderá aferir a veracidade das acusações são os tribunais. Num comunicado assinado pelo presidente do Conselho de Direcção da IURD-Angola, Bispo António Pedro Correia da Silva, este repudia a “rede difamatória e mentirosa que se difundiu no dia 28 de Novembro de 2019, através das redes sociais e media tradicional que de forma leviana informa o desvinculamento da igreja em Angola da liderança mundial”, lê-se. Segundo o Bispo António da Silva, este grupo é de ex-pastores desvinculados da instituição por desvio moral e de condutas até criminosas que tem arquitectado uma rede de mentiras, por terem sua ganância saciada.