Entre consumir água imprópria ou “morrer” de sede em Sangano

Entre consumir água imprópria ou “morrer” de sede em Sangano

Sempre que a sede impõe a humana necessidade de consumir água, Mendonça Pedro não tem alternativa, senão recorrer ao preciso líquido que tem uma quantidade de sais minerais superior ao da água doce e inferior ao da água do mar. Um exercício que é feito pela maioria dos moradores dessa circunscrição que não tem sido beneficiada de chuva há anos. Este habitante de Sangano descreve a falta de água potável como um dos maiores problemas com que têm de lidar diariamente e pede a intervenção do Governo no sentido de pôr termo a este sofrimento.

Alegou ainda que, enquanto tal não acontece, muitas pessoas têm contraído doenças próprias do consumo de água nesse estado e a unidade hospitalar local não tem capacidade de resposta. Essa opinião é partilhada por Albertina Francisco, que descreveu a vida em Sangano como sendo bastante difícil, devido à falta destes dois serviços básicos e de um mercado para as compras. “Nós vivemos da pesca e da agricultura, mas como a nossa localidade não tem sido agraciada com chuva pela natureza, vivemos pessimamente”, afirmou. Acrescentou de seguida que “a água que consumimos sai de uma montanha e desagua numa lagoa. Somos obrigados a bebê-la por falta opções e, em consequência, os nossos filhos ficam adoentados com diarreias e doenças da pele”.

O conselheiro do bairro, Lucas Nganda, por sua vez, afirmou que a seca é o grande problema para a sua comunidade. Com isso, a vida se tornou mais difícil. As famílias que viviam com os recursos provenientes da prática da agricultura abandonaram os campos por falta de água. Lucas Nganda disse ainda que sem chuva não conseguem fazer nada. Hoje, os agricultores tentam dominar os segredos para uma boa pescaria, o que não tem sido fácil. Apesar de exercerem essa actividade, há muito sofrimento nessa região que muitos não imaginam. “Aqui temos peixe por causa do mar, mas sem fuba ou feijão vamos comer como?” perguntou.

“A maioria das pessoas aqui são pescadoras e muitos jovens não fazem nada, acabando mesmo por enveredar pela criminalidade, por falta de emprego. A falta de energia eléctrica também contribui para o aumento da delinquência, uma vez que estamos isolados”, disse Mendonça Pedro.
Apesar da seca, há muito sofrimento nessa região Lucas Nganda disse ainda que pretendem mais salas de aulas, “porque as salas provisórias que temos não têm condições nenhuma”, apelou. Nesta comunidade, os únicos meios de apoio social disponíveis são uma escola com apenas três salas de aulas, que abrange alunos dos 5 aos 18 anos, um posto de saúde, duas cantinas e um mercado de peixe na praia.

Saúde carece de atenção especial Entre tanta dificuldade, há um jovem que se dedica a acudir os doentes diariamente, das 7 às 15h30. Trata-se de Noel João, o único enfermeiro do posto de saúde dessa localidade, onde existem registos de muitas doenças transmissíveis e outras como a infecção da pele. Segundo o enfermeiro, as doenças mais frequentes são o paludismo, doenças diarréicas agudas, as infecções urinárias, as sistomíases e as infecções da pele, que têm a ver com o saneamento básico do meio e a falta de água potável.

Diariamente o único posto de saúde atende 15 a 20 casos de casos com diarréias agudas e infecções da pele, devido o tipo de água que consomem. A unidade sanitária funciona somente no período diurno por falta de energia eléctrica e enfrenta ainda dificuldades de alimentos, transportes e, à semelhança da comunidade, de água potável. Apesar disso, segundo ele, não têm registos de casos de mortes por essas epidemias. Noel João falou do paludismo como sendo a principal causa de morte nessa localidade, à semelhança do que acontece em todo o país. Os casos mais graves são encaminhados para a unidade sanitária de Cabo Ledo, que dista muitos quilómetros, à custa dos parentes do doente, por falta de ambulância.