EUA matam general iraniano, o petróleo sobe e o mundo teme nova guerra

EUA matam general iraniano, o petróleo sobe e o mundo teme nova guerra

A morte do general Qassem Soleimani, um dos homens mais poderosos do Irão, marca mais um capítulo na escalada de tensão entre os governos iraniano e norte-americano. O líder da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária foi atingido num bombardeamento ordenado por Donald Trump, em Bagdad, no Iraque. Em nota, o Pentágono culpou Soleimani por mortes de americanos no Médio Oriente e afirmou que o objetivo foi deter planos de futuros ataques iranianos. Enquanto líderes iranianos falam em “vingança”, a embaixada dos Estados Unidos em Bagdad pede aos cidadãos norte-americanos que estão no Iraque que deixem o país o mais rápido possível, por via aérea ou terrestre.

Quem era Qassem Soleimani?

Qassem Soleimani tinha 62 anos e era um alto líder das forças militares iranianas e um herói nacional. Ele foi o general da Força Al Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária, um braço paramilitar de elite que responde directamente ao aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país há 30 anos. Soleimani era apontado como o cérebro por trás da estratégia militar e geopolítica do país. Muito próximo ao líder supremo, ele sobreviveu a diversas tentativas de assassinato nas últimas décadas.

Quantos morreram no ataque?
Ao menos sete pessoas morreram no ataque. Além de Qassem Soleimani, Abu Mahdi al-Muhandis, chefe das Forças de Mobilização Popular do Iraque (milícia apoiada pelo Irão) também foi identificado. Entre outros cinco mortos está o porta-voz das Forças Populares de Mobilização, Mohammed Ridha Jabri. O enterro de Soleimani e alMuhandis é hoje, Sábado (4) e tanto o Iraque quanto o Irão decretaram três dias de luto.

Como foi o ataque?

O bombardeamento ordenado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, teve como alvo um comboio de veículos dentro do Aeroporto Internacional de Bagdad. A comitiva com Soleimani vinha da Síria e deixava o aeroporto em dois carros. O ataque aconteceu próximo a uma área de cargas.

O Pentágono não apresentou detalhes sobre o ataque, mas veículos da imprensa internacional dizem que mísseis teriam sido lançados por um drone ‘American MQ-9 Reaper’. O bombardeamento aconteceu poucos dias após manifestantes invadirem a embaixada dos EUA em Bagdad, entrando em confronto com as forças americanas do local.

A 31 de Dezembro, o Presidente americano, Donald Trump, acusou o Irão de estar por trás dos ataques, mas o país negou responsabilidade. Trump ainda afirmou em mensagem no Twitter que o Irão pagaria um preço muito alto se houvessem mortes ou danos em instalações americanas. “Isso não é um aviso, é uma ameaça”, twittou o Presidente norteamericano.

O Irão respondeu, por meio do seu Ministério de Relações Exteriores, que os EUA “têm a surpreendente audácia de atribuir ao Irão os protestos do povo iraquiano contra a matança selvagem de pelo menos 25 iraquianos”, citando os ataques dos EUA no Iraque e Síria contra milícias xiitas apoiadas pelo Irão a 29 de Dezembro de 2019. Dias antes, os EUA acusaram o grupo pelo ataque que matou um empreiteiro civil do país e feriu quatro membros do serviço americano e dois membros das Forças de Segurança do Iraque, perto da cidade de Kirkuk, rica em petróleo.

O que fazem militares do Irão no Iraque?

Há vários anos, o Iraque encontrase no meio do fogo cruzado entre os EUA e o Irão. Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar as questões iraquianas. Mas Teerão e o movimento pró-Irão se infiltraram na organização norte-americana. A crescente influência de Teerão no Iraque, que é um dos maiores produtores de petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), sempre gerou temor de um isolamento diplomático e de sanções políticas e económicas.

As forças pró-Teerão acumularam um arsenal graças ao Irão, mas também ao longo de anos de combate junto com os americanos, em particular contra o Estado Islâmico. O movimento atacou a embaixada dos Estados Unidos em Bagdá na Terça-feira (31). O Irão treina e apoia um grupo de milícias que actua no Iraque. Elas estão todas organizadas numa federação chamada Forças de Mobilização Popular. O Iraque não é o único país onde há influência iraniana –ao menos no Iêmen, Síria e Líbano há interferência do Irão.

Que justificativa dos EUA para a acção militar?

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, diz que a decisão foi tomada com base em análises de inteligência. “Ele estava a planear activamente para realizar acções na região –uma acção grande, como ele descrevia– que colocaria em risco dúzias, se não centenas, de vidas americanas. Nós sabemos que era iminente.” – Mike Pompeo Segundo nota oficial enviada pelo Pentágono, a acção faz parte de
“medidas defensivas decisivas para proteger o efectivo dos EUA no exterior” e “teve como objectivo impedir futuros planos de ataque iranianos” O órgão também informou que o “general Soleimani estava activamente desenvolvendo planos para atacar diplomatas americanos e membros do serviço no Iraque e em toda a região.”

Como a oposição a Trump recebeu a notícia?

Segundo a AFP, o Congresso americano não foi informado com antecedência sobre o ataque e as consequências geraram preocupação entre os congressistas a menos de um ano das eleições presidenciais nos EUA. A democrata Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes, advertiu que o bombardeamento ameaça provocar “uma perigosa escalada da violência”. Já o senador democrata Christopher S. Murphy escreveu no Twitter que “Soleimani era um inimigo dos Estados Unidos. Esta não é a questão. A questão é que – como os relatos sugerem, a América acaba de assassinar, sem nenhuma autorização do Congresso, a segunda pessoa mais poderosa do Irão, desencadeando conscientemente uma potencial guerra regional maciça?”

Quais as possíveis consequências do ataque?

O professor de relações internacionais da Universidade Federal do Rio de Janiero (UFRJ), Tanguy Baghdadi, prevê reação forte do Irão. “É catastrófico! Esse fato não passa em branco! É garantido que o Irão vai dar uma resposta”, disse o especialista. O comentarista Guga Chacra, da GloboNews, diz que as consequências serão gravíssimas no Médio Oriente. “O irão vai reagir a essa morte.

A gente vai entrar num período de instabilidade enorme com risco gigantesco de conflito a partir desse momento. É um momento de extrema tensão”. O ataque provocou preocupações sobre a escalada das tensões regionais e a interrupção do fornecimento de petróleo. Com isso, os contratos futuros do petróleo subiram mais de 4% – cerca de 3 dólares. O Iraque exporta cerca de 3,4 milhões de barris de petróleo bruto por dia. Analistas dizem que o preço pode subir até aos USD 100.

Como reagiram os líderes do Irão e Iraque

O líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, escreveu no seu Twitter: “O martírio é a recompensa pelo seu trabalho incansável durante todos estes anos (…) Se Deus quiser, sua obra e o seu caminho não vão parar aqui e uma vingança implacável espera os criminosos que encheram as mãos com o seu sangue e a de outros mártires”.

O Presidente iraniano, Hassan Rouhani, disse que agora o país estará mais determinado a resistir aos EUA e prevê vingança. “Não há nenhuma dúvida de que a grande nação do Irão e outras nações livres da região se vingarão por este crime horrível dos criminosos Estados Unidos.” O ex-comandante da Guarda Revolucionária do Irão Mohsen Rezaei também prometeu “vingança vigorosa contra a América” pelo assassinato de Qassem Soleimani. O ministro iraniano das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, advertiu que a morte do general iraniano é uma “escalada extremamente perigosa e imprudente”.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, afirmou que o ataque vai “desencadear uma guerra devastadora no Iraque”. Já o influente líder xiita iraquiano Moqtada Sadr anunciou a reactivação da sua milícia anti-EUA, o Exército de Mehdi, e ordenou que os seus combatentes fiquem preparados.
O que pede a Embaixada dos EUA em Bagdad após o ataque?

A Embaixada dos EUA em Bagdad, pediu aos cidadãos norte-americanos que estão no Iraque que deixem o país o mais rápido possível, por via aérea ou terrestre. A representação diplomática pediu aos americanos no Iraque que deixem o país “de avião enquanto é possível”, já que o bombardeamento aconteceu no aeroporto de Bagdad, ou “sigam para outros países por via terrestre”. As principais passagens de fronteira do Iraque levam ao Irão e a uma Síria em guerra, mas também há outras áreas de fronteira com a Arábia Saudita e Turquia.