Projecto de avicultura no CuanzaNorte: a terceira pode ser de vez

Projecto de avicultura no CuanzaNorte: a terceira pode ser de vez

Oministro da Agricultura e Florestas, António Francisco de Assis, termina hoje a sua jornada de trabalho de 3 dias na província do Cuanza-Norte, para onde se deslocou neste início de ano. O titular da Agricultura e Floresta deslocou-se às húmidas terras a Norte do imponente rio Cuanza, para relançar, pela terceira vez, o projecto de produção avícola, desta vez em versão melhorada e menos megalómana que no passado. O ministro entregou a dois criadores cerca de 3 mil pintos de raça rústica de origem sul-africana e duas incubadoras com o intuito de fomentar o repovoamento da região com a espécie.

O projecto, financiado pelo Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Agrário (FADA), aposta agora na produção agrícola local para obter matéria-prima para a fabricação de ração animal, que tem sido apontada como a maior dificuldade dos criadores de aves. “Estes dois jovens empreendedores vão ser os criadores de parentais (ou seja: donos dos galos e galinhas), ovos férteis e através das duas incubadoras produzirem pintos para irmos povoando outros aviários e apoiar as famílias para que elas nos seus quintais possam também produzir”, revelou o ministro, em entrevista colectiva à imprensa no final do lançamento do projecto, ontem, nos arredores de Ndalatando.

O governante não revelou o total do investimento suportado pelo FADA, mas assegura que a dificuldade de ração deverá ser suprida com recurso aos produtos locais (milho, feijão, ginguba, batata doce, e outros), desde que seja levado conhecimento aos criadores, evitando, desta forma, a megalomania de edificação de grandes fábricas para produzir o alimento para as aves. “As grandes fábricas de ração é um modelo ultrapassado.

O Governo quer usar a produção local e em pequena escala como via para suprir este tipo de necessidade, se bem que não desencorajamos investidores privados que pretendam investir neste segmento”, asseverou o governante. “Durante muito tempo vendeuse em Angola a ideia de que a ração tem de ser importada. A ração é mistura de componentes e, estes nós temos em Angola. Por exemplos, os dois jovens seleccionados podem fazer parceria com os camponeses das aldeias ribeirinhas e elas produzirem os componentes”, sugeriu o ministro.

O grande projecto avícola da região

O projecto data de 2009, altura em que se deu o primeiro passo de um ambicioso projecto que buscava, dentre outras valências, “melhor aproveitamento do potencial agroindustrial do perímetro, emprego para a força de trabalho local e suprimento de necessidades alimentares, diminuindo a importação de galináceos”. Tratava-se de um investimento integrado, num programa do Governo angolano cujos beneficiários eram as províncias do Cuanza-Norte e Malanje, no quadro da linha de crédito do Exim Bank para Angola e contempla a construção, no município de Lucala, de 120 naves com a capacidade para 25 mil pintos, um matadouro capaz de abater dez mil aves/dia e uma fábrica de ração, com uma capacidade de produção de 25 mil toneladas/dia, podendo beneficiar 120 famílias.

O empreendimento previa, na altura, uma incubadora com a capacidade para 150 mil ovos, para a reprodução de pintos e posterior distribuição aos criadores. Financiado pelo Exim Bank da Coreia do Sul, o ambicioso projecto avícola “engoliu” quatro mil milhões e 900 milhões de Kwanzas e deu como resultado, no seu primeiro ano, cerca de 77 mil 850 frangos em regime experimental e entendidos no ofício acreditavam que estava encontrada uma das “soluções” em busca de autossuficiência regional neste tipo de produção, mas foi “sol de pouca dura”.

O ambicioso projecto “deu ares de sua graça” apenas por um período de cerca de três meses, tempo suficiente para vender as galinhas colocadas para o acto inaugural, em 2012, que contou pomposamente com a participação do então ministro da Agricultura da época, Afonso Canga. Seguiu-se depois uma catastrófica gestão que em catadupa levou tudo à ruína a tal ponto de faltar água e ração e as infra-estruturas terem sido arrasadas por um incêndio de que não se conhecem autores até aos dias hoje, deixando um rasto de destruição de equipamentos como os comedouros e bebedouros.

Neste vendável esfumou-se a ambição de vir a comercializar subprodutos comestíveis, em especial vísceras vermelhas (coração, moelas e fígado), patas, pescoços e frango congelado inteiro ou em partes, e como principal subproduto, a carcaça de frango, oriundo do matadouro, segundo o projecto. No plano original as espectativas apontavam para um efectivo de 1,2 milhões de galinhas a cada 45 dias, do que resultariam 300 postos de trabalho permanentes. Era igualmente meta do projecto o relançamento e estruturação de forma sustentável de toda a fileira produtiva da avicultura, o que coincide com os programas gizados pelo Executivo de incremento da produção interna, visando a substituição das importações, criação de empregos, combate à fome e redução da pobreza.

Segunda “vida” do projecto Depois do abandono a que esteve votada a seguir ao seu arranque em 2012, em Setembro de 2018 o projecto avícola de Lucala é ressuscitado, desta feita com uma nova gestão, e já sob a mão de Marcos Alexandre Nhunga, como titular da pasta da Agricultura. No relançamento na era Nhunga a solução encontrada foi a transferência da gestão de 40 das 240 naves de criação, afectas ao projecto na localidade da Pamba do Sector, município do Lucala, para a tutela do Ministério da Defesa, por via de um protocolo no qual foi inclusa a governação da província.

Pelo Ministério da Agricultura assinou tal protocolo o então secretário do Estado da Agricultura, Carlos Alberto Jaime, enquanto pelo Ministério da Defesa rubricou o brigadeiro Faria de Sousa, ao passo que pelo Governo da província do Cuanza-Norte assinou o seu vicegovernador da altura para o Sector Técnico e Infra-estruturas, Mendonça Luis. Carlos Alberto Jaime justificava que a transferência da gestão do projecto, com capacidade para produzir entre cinco a 10 mil toneladas de carne de frango/ano, permitiria ao Estado poupar “avultados recursos financeiros, em termos de divisas, com a importação de produtos de origem avícola”.

Nesta nova modalidade sempre esteve prevista a inclusão dos produtores locais e empresários interessados em investir neste segmento da economia, desde que demonstrem capacidade de auto-sustentação e rentabilização do projecto. Mais uma vez, foi novamente “sol de pouca dura” e, por falta de condições, sobretudo de alimentação para as aves, e do não acabamento das obras das suas infra-estruturas de apoio, como a fábrica de ração, a instalação de sistemas de abastecimento de água e energia eléctrica, bem como o matadouro, obrigou as autoridades a suspenderem as vendas.

Aviários em crise pelo país Uma reportagem de OPAÍS, em Dezembro, dava conta do “cada vez mais frequente encerramento de pequenos e médios aviários em todo o país”. Os encerramentos, sinalizavam as fontes, eram motivados por falta de matéria-prima e pelos custos elevados no transporte da mercadoria.

Cuanza-Norte apenas com um aviário nas estatísticas Em 2016, a província de Luanda liderava a produção de ovos com 19 milhões 171 mil. Enquanto as províncias do Cuanza-Sul, Benguela, Bié, Huíla e Huambo produziam um total de 16 milhões 352 mil 960, somando 36.507.232 em todo o país. A capital do país contava com 20 aviários, o Cuanza-Sul com 12, Benguela 6, Bengo igualmente 6, Bié 3, Cuando Cubango 2, LundaSul 2, Uíge 2. Já o Cuanza-Norte, Moxico, Lubango, Namibe, Huambo, Zaire e Lunda-Norte têm, todas, um aviário cada. As regiões que ainda não produzem ovos são Cabinda, Cunene e Cuando Cubango.