Ano Novo, Velhas Makas!

Ano Novo, Velhas Makas!

Boas entradas, saídas e demais. É a primeira vez que vos escrevo neste ano novo, ou novo ano, num exercício que, vos confesso, desejo que se prolongue por muitos mais. As razões que motivam a fazê-lo, entretanto, não são tão animadoras quanto o desejo de o fazer. Mas é mais um daqueles casos em que a gravidade e dimensão do assunto só nos deixa duas saídas: ou falamos ou choramos. E eu prefiro a expressão, o que desemboca nos dois caminhos. Certamente, estou a assumir, atenção, já terão ouvido da fatalidade que marcou negativamente as primeiras impressões de um ano novo, logo no seu primeiro dia. Um crime hediondo contra uma jovem mulher, protagonizado na Ilha do Mussulo, em Luanda, que enlutou familiares e amigos e calou, para todo o sempre, uma voz. Um nome próprio. Uma certeza. Milhares de sonhos, desejos e aspirações O que aconteceu com a jovem Erica Basílio, à semelhança do que acontece com milhares de mulheres angolanas, todos os dias, cujos nomes jamais serão trazidos à tona pelo esquecimento amargo e propositado de uma sociedade que privilegia o privilégio social, não é debatível, negociável ou passível de qualquer tipo de consideração que tente, de qualquer modo, encontrar razão em uma acção sem razão. Matar alguém, independentemente do suposto motivo, mais do que cobardia e crime, é sobretudo das mais puras demonstrações do quão amarga a fruta humana pode saber. E quem não consegue compreender isso – buscando este ou aquele elemento para tentar amenizar o repúdio social – certamente precisa de ajuda, das mais urgentes possíveis e disponíveis, preferencialmente. Dedicar estas linhas somente ao repúdio de uma acção tão lamentável quanto aquela que pôs fim a vida de uma alma jovem seria, na minha opinião, limitar a vasta nuance de reflexões que este caso, em particular, nos convida a fazer enquanto sociedade. Mussulo: O Mito do Luxo Enganado Na Miséria? Segundo os relatos do que aconteceu no dia em que a jovem de 20 anos perdeu a sua vida, depois do crime ter ocorrido no bairro Cambaxi, Ilha do Mussulo, a jovem terá sido transportada para a clínica Girassol, na Maianga, à procura de assistência médica, conforme assegura o Jornal de Angola, mas não terá resistido, “tendo falecido mesmo antes de chegar à unidade hospitalar”. Isto abre aqui uma reflexão que não pode ser ignorada. A Ilha do Mussulo é, e não é de hoje, um dos mais escolhidos destinos para o turismo interno em Luanda. Não só de “simples mortais”, que encontram na beleza e calmia do Mussulo um grande escape para a azáfama da grande cidade, mas também de muitos dirigentes angolanos que há anos têm vindo a fazer grandes investimentos na aquisição, remodelação e apetrechamento das suas “casas de férias” naquela ilha, esquecendose, sempre, como já é de praxe dos nossos governantes, de investir na qualidade de vida da população local que, de uma forma ou de outra, é também a sua própria qualidade de vida e das suas famílias, uma vez que toda a vez que o sol parece insuportável na cidade, eles pegam nos seus iates privados e vão para lá – não é boato da boca pequena, eu próprio conheço alguns casos. Ante tanto descaso no que ao investimento público em zonas como o Mussulo diz respeito só me resta concluir que os nossos dirigentes têm um conceito muito distorcido daquilo que significa o conceito de “qualidade de vida”. Para eles, fruto do julgamento por via das suas acções, a qualidade de vida esgota-se no material. Em terem a maior mansão do Mussulo; os filhos terem o último grito das motorizadas Honda Trx para ostentarem e competirem qual é a mais barulhenta, com os amigos; a família ser vista no mais luxuoso iate, etc. Dando espaço para que eu diga que, no auge da estupidez e ignorância disfarçada de “elite”, essa nossa classe de governantes nunca compreendeu que investir na melhoria de vida da população do Mussulo, por exemplo, seria investir na segurança e proteção deles próprios. Será que nunca lhes ocorreu a necessidade de uma urgência médica aquando de uma das suas visitas? Vão para o Mussulo, fim-de-semana sim fim-de-semana não, e nunca conseguiram parar, nem que por um segundo que seja, para ler o perfil da população local que vive em condições extremas e no quão revoltante deve ser ser o “dono” de uma terra onde você, o residente, tem de viver em uma casa improvisada de chapas, por falta de condições, enquanto que ao lado há uma mansão fechada durante toda a semana pois é só mais uma das “casas de férias” deste ou daquele marimbondo. O Mussulo real, não esse turístico onde nós vamos lá passar o fim de ano na casa do tio Ricardo, mas o Mussulo de todos os dias, tem muitos problemas sociais que carecem de uma maior atenção e intervenção das nossas autoridades. Que vão da falta de água potável à insuficiência de escolas e centros médicos, como denunciado na reportagem “Mussulo dos encantos e das necessidades”, do jornalista Miguel Kitari, publicada por este jornal há 3 meses. Há, neste momento, uma iniciativa popular expressada por uma petição pública a circular nas redes sociais que demanda a construção de um hospital na Ilha do Mussulo, como resposta a um caso que talvez, se houvesse pronto socorro no local do crime, pudesse ter sido minimizado. O Mussulo tem alguns centros médicos que, para além de não estarem capacitados para dar resposta as necessidades da população, funcionam segundo uma fonte, sem médicos e só com a assistência de enfermeiros. Dúvido que sejam neles onde o administrador comunal recebe tratamento médico quando precisa. É só uma dúvida popular. Quem fala da Ilha do Mussulo fala de tantas outras zonas deste país cujas belezas e recursos são explorados, e muitas vezes até danificados, sem que a população local veja qualquer tipo de benefício… e ainda querem falar de um tal hospital exclusivo para os governantes? Epaaa, esta fica para a próxima semana… É mesmo um novo ano cheio de makas rugosas.