No cemitério também se dão gargalhadas

No cemitério também se dão gargalhadas

E também há encontros nostálgicos. É um local de festas lúgubres. Eu e muitas outras pessoas despedíamosnos do último dia do ano na entrada do cemitério Sant’Ana dando o último adeus há uns tantos outros, consequentemente. Centenas de nós vivos sem vontade de lá estar mas por alguma obrigação moral tivemos de o fazer. É assim que funciona a tal da solidariedade que as vezes é necessária entre os humanos vivos. Os mortos querem lá saber disso. São uma cambada de egoístas sem culpa, literalmente. Não sabem a dor que deixam para os que fi cam. Rostos acizentados com níveis de dor graduais faziam manchete no local. Para além daqueles que foram entregar seus entes que querendo ou não desligaram a fi cha da vida, haviam também outros que foram limpar o apartamento dos seus entes já idos a mais tempo naquele terreno vasto. Vassouras, baldes com água e muitos pedaços de panos para dar aquele brilho na campa. Já resignados com a situação viveram o último dia do ano como se de uma data normal fosse. Mudam-se os dígitos no milénio e continuam as horas como se nada tivesse passado. Devaneios. É sempre um motivo de festa pela passagem de uma maratona de 365 voltas com vida. Num espaço de uma hora quase 10 cortejos fúnebres aconchegavam ao local. Choros em todos os tons e sinfonias. Lágrimas cansadas e secas. A rouquidão denunciava a tamanha angústia na pronúncia do nome de quem já tinha partido. Hipocrisia nalgumas melodias. Noutras o desespero total:“Ai minha mãe; ai meu pai…”. Histórias algumas conhecidas. A minha capacidade de ouvir o que não me diz respeito foram apurando alguns factos. Senhora morta pelo neto desmiolado, pai abandonado na via e fi lhos que não tinham opção de escolha se queriam nascer ou não no seio dos frívolos país que a natureza os deu. Só restava agora arcar com as consequências da dor e desconforto adiando assim a alegria de poder transitar para o ano subsequente com assaz satisfação. Estavam 34 graus centígrados. Até parecia um ensaio para o famigerado inferno que apregoam os religiosos. Em procissão levávamos os nossos entes, cada um ao seu novo lar. Ao mesmo passo caminhavam as nuvens no céu como se tristes também estivessem. Cânticos e louvores para acalentar com ludíbrios os presentes vivos profetizando um novo lar para o defunto ao lado do Pai celestial. Enquanto caminhávamos entoando cânticos de acalento, um coveiro ia dando uns toques ao som da tristeza. Ouvi alguém dizer: “Esse coveiro não tem coração. Estão a entoar cânticos de tristeza e ele está a mexer a bunda”. Depois puseram-se em gargalhadas. Seria muito mais engraçado se não fosse num momento trágico. As árvores com os troncos ressequidos todos os dias santos presenciavam o mesmo cenário. Se tivessem sentimentos seriam umas autênticas mal amadas. Se lágrimas regassem fl ores elas dariam um amor sincero. Mas nem isso. O sol abrasador que se fazia sentir desviava atenções. Vi machos a ignorarem a “macheza” e abrirem guarda-sol. Eu mantive-me orgulhoso e fui corando a pele sob a intensa raiva do astro rei. Naquele lugar invulgar, reencontros houveram. Houve também quem saudasse com satisfação quem há já um bom tempo não via. Saudavam com sorrisos e davam gargalhadas. Afi nal não é um lugar só de tristezas. Há quem fi nte a dor com largos sorrisos. Outros há que assumem a responsabilidade dos seus sentimentos. Afi – nal de contas era apenas o fi nal do ano a derramar horas no cemitério e nós dizendo “até breve” aos nossos eternos entes. Entre lágrimas e profundas refl exões sobre o que é a vida de quem sofre por quem já partiu pude observar que afi nal no cemitério também dão-se gargalhadas. E audíveis.

Por:Edy Lobo