Dualidades

O mundo é cruel, isso já sabemos de há muito, e é mais cruel quando actua na sua inevitável dualidade, numa aparente injustiça. Injustiça, mas haverá sempre uma explicação lógica, uma razão, ainda que não nos convença, que não aceitemos, mas, se calhar, só por isso o mundo é este mundo, com os equilíbrios que inventa e que nos derrotam a alma. Vejamos como se comporta o mundo ante os fogos na Austrália, é um drama, diz-se, mas a atenção principal vai para pessoas que são fi lmadas a dar de beber água a pequenos animais achados à beira da estrada, por exemplo, quando a catástrofe por lá é imensa. Mas quais biliões de dólares reunidos em meia-hora, isso foi para o incêndio da Catedral de Notre Dame, bem mais recente do que as edifi cações de Palmira ou os budas do Afeganistão, destruídos pela insanidade humana. Os fogos na Amazónia deflagraram uma crise nas relações internacionais. Em Angola, os processos judiciais destes dias também são vistos como injustos, por haver, supostamente, muita gente que fez estragos e que não está a ser perseguida pela Justiça. Uma mãe que perdeu um fi lho porque a enfermeira não administrou o medicamento que preferiu vender à porta do hospital também quer justiça, isso para não falar do universo de servidores públicos que levaram algum ao bolso. Aqui, a aposta é sobre se os que escapam preenchem os dedos das duas mãos. Estamos num só país, um só sistema público de Educação, em Cabinda, as meninas são proibidas de usar cabelos postiços, haverá uma lógica qualquer para a medida ter razão, mas a ministra da Educação usa peruca, linda. Pode ela entrar numa escola pública em Cabinda?

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