Yuri Quixina: “Uma economia em crise e sem produção não devia taxar as importações”

Yuri Quixina: “Uma economia em crise e sem produção não devia taxar as importações”

Na última cerimónia de cumprimentos de ano novo, o Presidente da República apelou ao engajamento de toda a nação no desenvolvimento do país. Como pensa que as pessoas devem participar? Primeiro, é um Presidente que deu conta que quem desenvolve o país não é ele sozinho, é necessário engajamento de todo o país. Todo o país deve estar mobilizado para contribuir no desenvolvimento. Sempre defendi que os discursos do presidente devem incidir sobre as questões micro. Por outro lado, o Presidente da República percebeu que o seu mandato é temporário, já não há possibilidade de fi car 38 anos no poder, como o antigo fi cou. Por isso, é importante mobilizar o povo no processo de transformação do país.

Como você pensa que a igreja devia participar neste processo?

A nossa igreja em Angola está a ser cada vez mais estranha, porque não participa no processo de desenvolvimento. A igreja coloca-se à margem dos processos políticos. Há até igrejas que defendem o não envolvimento na política. A transformação da Coreia do Sul dependeu da igreja, porque oravam à madrugada, para que Deus desse um líder que ajudasse a liderar bem o país. E aí surgiu Park Chung-hee, considerado um dos responsáveis pela industrialização do país.

A parte sul da Coreia, essencialmente agrícola, não tinha quase nada. Mas fruto das orações da igreja, que até hoje se faz, o país atingiu esse nível de desenvolvimento. O povo judeu é o outro exemplo desse sucesso. É o mais próspero do mundo, porque observam cinco princípios de vida.

Quais são esses princípios?

Os judeus detém os títulos dos principais prémios Nobel. Estão na medicina, na tecnologia, na segurança, é o povo com mais conhecimento. Tudo porque aplicam cinco princípios bíblicos na vida diária: excelência, baseada no livro de Provérbios 22:29; o bom nome e a estima (Provérbios 22:1); mentoria (Provérbios 15:22); repreensão (Provérbios 13:18) e a justiça.
Como pode afi rmar que a igreja angolana não ora? Porque as igrejas estão a lutar por dinheiro. O problema é que a igreja em Angola precisa de virar-se para Deus e orar constantemente. Se o país não orar, difi cilmente teremos desenvolvimento, porque os líderes não serão abençoados nem terão orientação divina.

BNA anuncia abertura parcial da conta capital. Que efeitos terá sobre a atracção do investimento directo externo?

Tem impacto em tudo que é economia. A nossa base de exportação é muito reduzida e se a conta capital for fechada, afasta a entrada de investidores estrangeiros. Essa flexibilidade é importante para a nossa economia. O banco central entrou na liberalização gradual do mercado cambial.

Mas é preciso começar por um lado. Pois, mas estamos viciados nessa prática. O triângulo que atrai investidores é: ambiente de negócio, que está ligado à segurança jurídica, imposto, crédito, infra-estrutura e outros. Segundo é o mercado cambial, que não deve ser controlado. Os investidores não gostam disso. O terceiro elemento é este a que nos referimos: a conta capital. Estamos a liberalizar o mercado do câmbio e outros, mas ainda temos uma taxa aduaneira proteccionista. É um contrasenso. Uma economia em crise e sem produção não devia taxar as importações ao nível a que taxamos. Se o nosso sistema tributário for muito pesado e complexo, a nossa economia também vai fi car pesada.

Essa medida do BNA chega numa altura em que o país se prepara para participar na Cimeira de Investimento em África, de Londres. Que valor acrescenta?

É uma estratégia para dar uma ‘chapada’ a Boris Jhonson, que recentemente criticou os mercados cambiais controlados de vários países, incluindo o de Angola. Julgo ser um dos instrumentos, por excelência, que o presidente vai levar. É uma oportunidade enorme para vendermos o nosso ‘peixe’, na medida em que a competitividade é grande.

Já ouviu falar do novo hospital?

O problema da Saúde em Angola não são os hospitais é de saúde preventiva e saneamento. Esse hospital está a ser polémico porque admitia-se a possibilidade de ser de uso exclusivo dos dirigentes. Mas o problema também não reside nessa exclusividade, é que o país está a fazer ajustamento orçamental, pagamento de dívidas e constrói hospital!

O argumento é que a obra tinha paralisado em 2012 por difi culdades fi nanceiras e já estava a meio da sua execução. Não colhe?

Quando um governo assume o poder tem de fazer inventário e defi nir prioridades. Temos dívida pública alta, problemas estruturais grandes e quanto menos gastarmos melhor. Ao invés de continuarmos a construir um hospital que vai consumir USD 128 milhões, devia-se fazer manutenção e melhorar os que já existem
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