Estado da Música Angolana gera controvérsias no programa “Menha Ndungo” da Rádio Mais

Entre os convidados estavam o director nacional da Cultura, Euclides da Lomba, o professor de Língua Portuguesa José Carlos de Almeida, o crítico musical Jomo Fortunato, o etno-musicólogo Txi Txi, bem como o produtor musical Dumai e o representante da UNAC-SA Diogo Kintino, que discutiram acesamente sobre o “Estado da Música Angolana”

O tema “Estado da Música Angolana” provocou uma discussão acesa entre os agentes culturais convidados a debater sobre o assunto, no programa semanal “Menha Ndungo” da Rádio Mais, ontem, Sábado, em Luanda. Apesar de o apresentador Hilário João advertir que o programa estava em fim de transmissão, os convidados ignoraram e prosseguiram o debate, o que forçou a realização a interrompê-lo, por causa da violação do tempo de antena. Por isso, o programa, que começou às 8 da manhã para terminar às 10:00 horas, estendeu-se por cerca de mais cerca 30 minutos. Entretanto, os convidados faziam comparações sobre o universo da música angolana actual e do passado.

O professor de Língua Portuguesa José Carlos de Almeida, autor do livro “Ensaboado e Enxaguado”, por exemplo, disse que as composições actuais apresentam mais erros, no que à língua oficial diz respeito. Vai mais longe. alegando que as composições actualmente são incorrectas e sem coesão. No princípio da música levantam um tema e desvirtuam-no pelo meio. Outra confusão que se tem feito, para o professor, tem que ver com a forma de tratamento. “Começam por tu e terminam com você. Isso não dá certo”.

Folclore sem progressão

Na ocasião, o produtor musical Dumai manifestou a não progressão e negligência da música folclórica por parte das entidades de direito. Para ele, é necessário que os políticos abram caminhos com leis e financiamentos para melhor distribuição da mesma. O produtor ainda lamentou a falta de olheiros para investimento de talentos de música folclórica. Outro aspecto que tam
bém foi rebatido diz respeito à aprendizagem das línguas nacionais. “O legado tem sido mal passado. Os mais velhos não se aproximam dos mais novos e os mais novos não se interessam em beber dos mais velhos. Se o quadro se invertesse, a nova geração estaria a falar as línguas nacionais. E vemos muitas roupagens a serem feitas por pessoas que não dominam a língua”, referiu Dumai. Segundo o produtor, a Comunicação Social também tem culpa da não progressão da música folclórica, pelo facto de dar mais espaço às músicas mediáticas.

Criação de rádios que promovam músicas nacionais exclusivamente Já o crítico musical Jomo Fortunato defendeu a ideia da criação urgente de uma rádio exclusivamente para a promoção de músicas angolanas. Esta iniciativa foi constatada no Brasil aquando da sua viagem a esse país. “Eu estava com um amigo meu, que sintonizou uma estação e eu só estava a ouvir músicas brasileiras. Antigas e recentes. Tocava mais música do que outra coisa. Às vezes vinha uma voz a explicar curtamente o percurso do artista”, continuou e pensou, seria bom que fosse assim em Angola Jomo incentivou também a implementação de sinaléticas nos municípios para que os cidadãos fiquem a saber quais as actividades culturais a acontecerem nos demais municípios.

Ataque à Cultura nacional

Assim, o etno-musicólogo Txi Txi disse que a Cultura Nacional tem sido alvo de ataques. Txi Txi lamentou o facto de o Ministério da Educação estar separado do da Cultura. “São poucos os países no mundo assim. A Cultura anda de mãos dadas com a Educação. Esta situação ainda temos de rever”, deplora. Por essa razão, exortou o Executivo a parar de pensar que aprender é só com a lusofonia, ressaltando que também se pode aprender com as ancestralidades de origem angolana. “O Ministério da Educação vem promovendo a educação com a lusofonia, mas retrocede matando a nossa cultura materna. Um exemplo prático: muitos angolanos optam pela adopção de nomes europeus. Duvido que haja uma portuguesa que
dê ao seu filho um nome africano”, afirmou. Sobre isso, o professor Carlos de Almeida insistiu que os músicos deviam ter, pelo menos, um nome angolano, de modo a serem culturalmente identificados quando forem para outros países.

Director nacional da Cultura reage

Ante as declarações que foram prestadas ao longo do programa, o director nacional da Cultura, Euclides da Lomba, reagiu dizendo que nem sempre se deve focar os problemas, mas sim as soluções dos mesmos. E, com este remate, ficou-se sem saber qual é o real “Estado da Música Angolana”, enquanto produto cultural de afirmação e de identidade, face à controvérsia surgida ao longo do debate que se estendeu por mais de 30 minutos além do seu tempo regular.

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